Hoje, 30 de maio de 2026, acontece na sede da Associação Cantareira o segundo encontro com as Guardiãs da Memória da Brasilândia. Estar presidente dessa associação inigualável, que mantém viva a resistência popular — logo, a própria democracia — seria uma honra inenarrável. Mesmo que meu papel na organização seja pequeno, e na diretoria, apenas uma parte do todo, o sentimento de pertencimento é imenso.
Não nego a honra do posto. E faço questão de parabenizar a existência dessas pessoas portadoras de memória, sem as quais o resgate seria impossível.
Mas resgatar, por si só, não basta. É preciso curadoria, para dar sentido à viagem arqueológica que empreendemos. Manter viva uma receita familiar, por exemplo, é muito mais do que exaltar a lembrança de alguém — é preservar a soma das memórias individuais que formam a grande colcha de retalhos da memória coletiva.
Façamos, então, o caminho inverso: do resgate coletivo ao resgate íntimo. Que cada indivíduo viaje para dentro de si, lembrando das brincadeiras de infância sepultadas pelos jogos tecnológicos, ou das pequenas alegrias que o corre-corre da vida apagou — não numa cova comum, mas no mais frio dos esquecimentos.
Infelizmente, os livros de história ainda contam apenas as histórias dos nobres e dos chefes militares. Aos oito anos, levei uma reguada — sem nenhum aditivo poético — por perguntar à professora se Pedro Álvares Cabral havia tirado sozinho a lona que cobria o Brasil para “descobri-lo”.
Talvez tenha sido uma pergunta hilária. Ou talvez tenha sido o âmago da questão.
Se o Brasil estivesse encoberto, ninguém o descobriria só. Nenhum general vence uma guerra sozinho. É preciso mudar o foco das escavações: olhar não apenas para as roupas dos nobres, mas para as mãos que as costuraram; para o agricultor que cultivou o linho; para quem construiu o tear.
E, claro, lembrar das delícias simples — como o bolinho de feijão de nossa mãe, D. Maria Aurora. Mesmo exausta das rotinas de diarista e da caminhada diária pela Estrada do Sabão, ela chegava em casa e, sem geladeira, guardava o feijão cozido debaixo da pia, o lugar mais fresco da casa.
À noite, separava uma porção, temperava e amassava com farinha de mandioca. Nós, os filhos menores, já tínhamos jantado, mas sentávamos aos seus pés, vendo-a transformar o cansaço em carinho.
Aquele gesto simples — o bolinho de feijão feito com amor e resistência — é uma memória inresgatável, e ao mesmo tempo, uma delícia de memória.

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