sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

TOMO MMXCIX - DE MUITO, MUITO, MUITO ANTES, PARA UM ALÉM DO INIMAGINÁVEL


Busco uma daquelas frases nostálgicas da infância, que sempre me pareceram absurdas — tão absurdas que nem mesmo nos círculos mais radicais eram utilizadas.

"O mundo só será realmente livre quando o último padre for enforcado com as tripas do último bispo."

Ouvi essa sentença numa segunda-feira de fevereiro de 1960, primeiro dia de aula na "E. E. Prof. Galdino Lopes Chagas". Claro, havia contexto.

São Paulo, ainda conhecida como terra da garoa, me recebia com tombos, roupas sujas e broncas em casa e na escola. O maior palavrão que se ouvia era "filho de uma boa mão" — tradução literal de FDP.

Misturo aqui, de forma proposital, a ideia central de Casamento Pequeno Burguês, de Bertolt Brecht: o pior inimigo é aquele que nos é simpático, contra o qual é difícil organizar resistência.

Minha família era católica fervorosa. Minha tia, evangélica da Assembleia de Deus, morava conosco. O amigo autorizado pela família vivia a poucos metros, e entre nós havia outro garoto, já no terceiro ano, autor da frase tema. Nas minhas lembranças infantis, parecia um "macumbeiro" — ainda que branco, numa época em que a ignorância associava macumba a preconceitos raciais.

A convivência, mesmo aos sete anos, gerava simpatias. A retidão dos evangélicos, porém, assentava uma hipocrisia que se revelava na primeira missa. Essa mesma retidão nos aproximava da frase radical.

Nos anos 1970, setores da Igreja Católica — especialmente dominicanos — entraram na luta contra a ditadura, defendendo a imagem de um Cristo amante da justiça, da liberdade e da paz. Desde cedo, aprendi a diferença entre fartura e escassez: um peru de Natal não era o mesmo que um frango dividido entre oito pessoas, acompanhado apenas de bananas do quintal. Não era inveja, mas busca por igualdade.

O autor da frase, em minha opinião, faleceu durante a pandemia, não de COVID. Tornara-se negacionista, dizimista fiel, terraplanista, e defensor de discursos que atribuíam virtudes a líderes autoritários. Morreu antes de 08/01/23; caso contrário, talvez tivesse sido uma das vítimas do Xandão.

Por trás dessa conversão, havia falta de formação e uma campanha de sedução publicitária: convencer que é mais salutar comprar uma casa no céu, pagando com privações e dores, apenas para dividir espaço com quem usa o chicote.

No fim, o "bispo bonzinho" me remete à peça de Brecht: é muito mais difícil enfrentar um inimigo que parece virtuoso.

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