No cinema, minhas lembranças percorrem as pornochanchadas, os filmes de Mazzaropi — o corintiano, o linguiceiro, e tantos outros da PAM (Produções Amâncio Mazzaropi). Durante a ditadura, a censura ideológica sufocou o cinema brasileiro, empurrando-o da pornochanchada para a pornografia explícita. Antes de falar do renascimento, é preciso lembrar o homicídio cultural que se abateu sobre este Brasil.
Tudo começou com a reação das senhoras católicas aos comícios da Central, que defendiam propostas como aumento real do salário mínimo, manutenção do décimo terceiro e reforma agrária. Essa reforma buscava garantir terras também aos afrodescendentes, os mesmos que haviam sido batizados à força em alto mar, acorrentados, porque era proibido entregar não cristãos às terras tomadas pela Inquisição. Enquanto imigrantes europeus e japoneses recebiam terras, os descendentes de escravizados eram relegados ao esquecimento.
A Liga das Senhoras Católicas justificava sua oposição com o argumento de que, na União Soviética, comunistas enforcavam padres. Nunca se perguntava se isso era fato, desinformação ou apenas distorção dos ensinamentos de Cristo. Essa trama começou ainda antes da renúncia de Jânio, quando eu vivia na Vila Terezinha, sem TV e sem luz elétrica.
(Um parêntese bem-humorado para os de outra época: perguntava-se onde ficava a Liga das Senhoras Católicas. Um desavisado respondia: “nas Perdizes”. O piadista retrucava: “pensei que fosse nas coxas”).
Após a secura intelectual, surgiram nomes como Glauber Rocha, expoente do cinema novo. Mais tarde, vieram Central do Brasil e Cidade de Deus, marcos do renascimento. Esse processo se consolidou com O Agente Secreto, para o desespero dos herdeiros da Liga das Senhoras Católicas — aqueles que acham normal dar terras a europeus e japoneses, mas ridículo concedê-las aos afrodescendentes, mesmo em um país continental e abundante.
MEMÓRIAS
De um cena insana,
Eu, um ano de idade,
Dormindo no celeiro,
Sobre fardos de algodão.
Aquele tinha sido o primeiro ano farto,
Só, que a falta da fartura,
A família deixou a roça,
De "a meia", talvez aí e suportasse,
Um sertanejo universitário.
Mas, um incêndio, provocou ,
O êxodo rural familiar.
Saindo do campo, três anos de idade,
Raspou qualquer memória aditiva rural,
Raspou as chances de um banho no rio,
Saindo do campo, três anos de idade,
Raspou as chances de uma cavalgada,
Saindo do campo, três anos de idade,
Sem memórias fartas, mas,
Cultuando, fragmentos outras memórias,
Disto faço meu legado,
Da escrita destas lembranças,
Tento deixar um legado.
Anesino Sandice

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