Talvez devêssemos mesmo, falar em desimperialização, mas?
Reflexões sobre hegemonia e história contemporânea
Recorro aos livros de história para lembrar os anos que antecederam a queda do Império Romano, talvez o único episódio narrado de dentro para fora. As demais quedas de sistemas políticos costumam ser contadas pelo olhar do invasor — seja pela ausência de registros da perspectiva dos vencidos, seja pela ignorância em relação ao apodrecimento das estruturas internas.
Hoje vivemos um momento que pode ser único na história: a globalização de um império em decadência, marcada por múltiplas relações e disputas pela hegemonia em um cenário que se tornou unipolar.
Estudar a história contemporânea exige compreender as consequências da Segunda Guerra Mundial. Dela emergiu um mundo bipolar, dividido entre a disputa do capital e do humanismo. O capital, entretanto, passou a ditar a realidade, demonizando o humanismo e transformando a exploração em prática quase “sagrada”, mesmo quando isso significa destruir o próprio planeta.
O resultado desse processo foi a consolidação de um mundo com uma única potência. Esse centro de poder alimenta a soberba das elites, refletida no pensamento do povo, que, por meio dos impostos, sustenta a existência dessa elite.
Nasci em um mundo bipolar e fui educado segundo as regras do capitalismo. Contudo, de forma inexplicável, antes mesmo de aprender a ler, o humanismo já falava mais alto em meus instintos. Por isso, muitas vezes ignorei as consequências dos avanços do capital contra a humanidade. Nos anos 1980, houve uma redefinição da ordem mundial, culminando na monopolarização.
Essa monopolaridade, sustentada pela arrogância da “meca” capitalista, ignora sua perda de relevância. Mas a oposição, que já existia durante a bipolaridade, ressurgiu com novas forças: além da Rússia, que se reorganiza, há a China, potência emergente.
No Brasil, a eleição de um operário para presidente na virada do milênio foi um marco histórico. Esse acontecimento contribuiu para a criação de um bloco econômico — o BRICS — que passou a desafiar a hegemonia norte-americana.
É importante lembrar que sou apenas um cidadão comum, sem qualquer relevância política. Assim como muitos cidadãos norte-americanos que seguem cegamente os ditames da mídia, também ignorei por vezes as ameaças que se desenhavam.
A invasão da Venezuela, nesse contexto, não passa de um espasmo, o estrebuchar de um império moribundo. Ainda assim, trata-se de uma ação criminosa, que deve ser condenada pelo restante do mundo. Afinal, do outro lado dessa disputa está a organização de nações independentes e, sobretudo, o povo venezuelano, que, pelas regras que regem o mundo, tem o direito inalienável à autodeterminação.

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