sábado, 3 de janeiro de 2026

TOMO MMCVI O ORELHA E AS NECESSIDADES DE BERNARD TOMÁS


Recentemente, um cãozinho chamado Orelha foi brutalmente agredido e, em decorrência da violência, veio a óbito. Apesar da intenção de manter isenção ideológica, é impossível ignorar o contexto.

O caso ocorreu na capital de um estado que se orgulha de ser o mais alinhado ao bolsonarismo no país, onde há manifestações recorrentes de xenofobia interna e o governo estadual aprovou uma lei anti-cotas.

A história de Orelha nos remete, curiosamente, a outro tempo e lugar. Há 160 anos, um jovem estudante de medicina em Londres, prestes a embarcar para a China em missão voluntária, ouviu um gemido vindo de um beco gelado. Bernard Tomás, então com 22 anos, desistiu da viagem e fundou um abrigo para órfãos londrinos. Sem cruzar oceanos, ele praticou uma medicina humanitária antes mesmo do termo existir. Estima-se que tenha acolhido entre 60 e 90 mil crianças ao longo de quatro décadas.

Mas o que isso tem a ver com Orelha? Tudo. Em Cuba, país frequentemente citado por críticos quando se fala da “fila do osso”, o voluntarismo à la Bernard Tomás tornou-se desnecessário desde a revolução de 1959. Mesmo sob bloqueio econômico, Cuba é referência mundial em ações humanitárias, enviando médicos e socorro onde o mundo mais precisa.

Enquanto isso, em países que se orgulham de sua liberdade de mercado, a fome é fabricada. A violência contra Orelha não é apenas um ato isolado de jovens imaturos — é reflexo de uma estrutura social que normaliza a agressão aos vulneráveis.

Vivemos para quê? Para perpetuar uma sociedade de crianças mimadas, prontas a agredir os mais frágeis — sejam eles um cão indefeso, um morador de rua ou o indígena Galdino? Quando os agressores são filhos das elites, recebem reprimendas públicas. Quando são das classes excluídas, são enviados a instituições que formam criminosos profissionais.

E assim, a velha ladainha da extrema direita se repete: “precisamos reduzir a maioridade penal”. Mas mesmo que isso aconteça, os herdeiros das classes abastadas continuarão protegidos por um aparato jurídico que transforma crimes em deslizes.


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