quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

TOMO MMXC – RE-PETECO DAS REPETIÇÕES


A célebre frase atribuída a Edmund Burke — “um povo que não conhece sua história está condenado a repeti-la” — já nos alertava sobre os riscos da amnésia coletiva. No Brasil, essa tendência estrutural de ignorar o passado é quase uma política de Estado. Somos capazes de transformar em “salvador da pátria” figuras que, na prática, pouco produziram além de bravatas.

Não estamos falando de Charles Chaplin ou do filme Adorável Vagabundo, onde o protagonista e seu cão — ambos ingleses — apenas desejavam viver com dignidade, sem flertar com poderes autoritários. Aqui, o cenário é outro: o Brasil repete, eleição após eleição, o mesmo roteiro. Às vésperas do pleito, governantes — geralmente de direita ou populistas — que passaram três quartos do mandato cobrando impostos e cortando direitos, distribuem migalhas e garantem a reeleição ou a vitória de seus sucessores.

As regras que se aplicam com rigor à esquerda ou à gestão progressista são ignoradas quando o poder está nas mãos da direita. A equidade administrativa é penalizada, enquanto o populismo é premiado.

Poderíamos fingir que esquecemos a estrutura colonial que nos moldou. Fingir que o “descobrimento” e a “independência” foram marcos de autonomia. Mas nossa independência foi uma farsa: Lisboa nunca foi de fato nossa metrópole, e os governantes lusitanos sempre foram manipulados por interesses externos.

Após as grandes guerras, a influência passou da coroa britânica para os ditames do Tio Sam. Continuamos sendo uma colônia — agora sob nova direção.

Mesmo o golpe de Vargas pode ser reinterpretado. Os industriais paulistas, derrotados militarmente, perderam também no campo social com a criação da CLT. Oito décadas depois, a Consolidação das Leis do Trabalho ainda é atacada por quem desconhece sua importância. Vargas foi elevado ao status de “pai dos pobres”, não por sua figura, mas pela memória seletiva que apaga contextos e complexidades.

Hoje, vemos políticos que antes esbanjavam arrogância se tornarem vítimas de perseguições reais ou simbólicas. Como ratos acuados, sem saída, diante de um felino impiedoso — metáfora de um sistema que devora seus próprios filhos.

A história, neste país, é negligenciada por estudantes e combatida pelas elites, que sabem o risco de uma população consciente. Se os brasileiros lembrassem do ontem — não apenas do dia anterior — saberiam defender a CLT e resistiriam aos projetos que ameaçam os direitos sociais.

Na história recente, vale lembrar como o Estado construiu mitos. Tiradentes, por exemplo, foi elevado a herói nacional por ter sido executado com requintes de crueldade. Mas há outros nomes que poderiam ocupar esse lugar com mais legitimidade popular. Antônio Conselheiro, acusado de monarquista apenas por sua pronúncia de “ré pública”, foi um líder religioso que enfrentou a recém-instaurada república. E Zumbi dos Palmares, com vínculos concretos com o povo e a luta por liberdade, permanece como símbolo de resistência — um verdadeiro herói nacional.

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