quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

TOMO MMXCVII LIÇÕES FREIREANAS


Uma das primeiras lições que aprendi com Paulo Freire foi esta: a leitura do mundo precede a leitura da palavra.

Volto a um tempo em que não havia programas jornalísticos. No máximo, um repórter que fazia publicidade para uma rede de postos de gasolina e comentava notícias vindas da sede da república, o Rio de Janeiro — quase nunca dos fronts de batalha como Vietnã, Camboja ou Coreia.

Mesmo sem saber ler, eu me valia dos “jornais-de-peixe”. Zé Félix parecia ter um arsenal deles, pois os curimbatás vinham embrulhados em verdadeiras relíquias: jornais que falavam de um prisioneiro indiano, um tal de Gandhi, que pelas notícias do rádio, eu jamais saberia quem era.

Esses jornais o retratavam como socialista — e ainda mais curioso, como alguém que citava Cristo. Para muitos, era um delírio: como um socialista ousava citar Cristo?

Na minha formação, o socialismo era algo demoníaco. Mas, como disse Freire, a leitura do mundo vem antes da leitura da palavra. Quando aprendi a ler, mesmo sendo proibido, comecei a entender a Revolução Cubana — também presente nesses jornais.

Enquanto o capitalismo censurava, promovia prostituição, drogas e o “punguismo” — termo que talvez venha da expressão “mão-leve”, usada para batedores de carteira.

Voltemos ao personagem central desta crônica: o “Manhattan Gandhi”, demonizado pela mídia nacional por ser socialista e por citar Cristo.

Minha primeira missa, aos cinco anos, foi antes de eu aprender a ler. Não conhecia a palavra “hipocrisia”, mas já intuía o que ela significava. A maioria das pessoas que se identificam como cristãs são, na verdade, hipócritas — não por maldade, mas por falta de formação.

Por quase dois milênios, o Cristo foi transformado em garoto-propaganda das benesses do Império Romano: prostituição, drogas, punguismo.

Hoje, na era da globalização tecnológica, os crimes dos “mãos-leves” são eletrônicos. Os “fiscs” pescadores usam as mesmas velhas técnicas para se isentar de processos criminais.

E os rótulos demoníacos continuam sendo aplicados àqueles que discordam do Cristo vendido pelo Império — não o Cristo da Bíblia, que, como Gandhi, defende ideias muito mais próximas do socialismo do que dos estelionatos promovidos por este tal “capetalismo”, mesmo que este se revista de uma pseudo atmosfera cristã.

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