segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Feliz Ano Novo e votos de felicidades!

 


A ilusão do novo . Semiótica do relógio.

O significado que atribuímos ao tempo não se esgota na sucessão de segundos ou na obediência mecânica a um calendário; trata-se de uma construção histórica, simbólica e material que organiza a vida social, as expectativas e as promessas.

O ano novo significa muito para muitas pessoas porque engloba, entre muitos outros fenômenos, um limiar arbitrário, porém poderoso: a esperança de recomeçar, de acertar as contas com o passado e de renegociar a ligação entre quem somos e quem aspiramos ser. E representa uma rota de fuga histórica. 

  Não é que o mundo mude sua natureza quando o calendário avança um dígito, mas sim que uma certa parte da consciência cultural coletiva precisa de marcadores para se narrar, para produzir significado onde a continuidade se torna excessiva.

A dialética dos ponteiros do relógio expressa essa tensão; eles giram incessantemente, retornando ao mesmo ponto, mas nunca são os mesmos; repetem-se e avançam simultaneamente. Essa é uma lei e uma propriedade da matéria que, com sua imensidão, impressiona muitos que se esforçam para controlá-la. 

  Nesse movimento incessante que nos inquieta, obrigando-nos a olhar para a frente, reside uma pedagogia social do tempo, não pouco pretensiosa, que nos ilude fazendo-nos crer que aprendemos a medi-lo como algo externo, objetivo, exato, enquanto o vivemos como uma experiência interna, desigual, repleta de afetos e, por vezes, ansiedades.

O ano novo funciona como um rito secular que ordena essa contradição, promete novidade em uma estrutura que parece se repetir, oferece mudança em um sistema de continuidade transbordante.

É por isso que abraços, brindes e resoluções não são gestos ingênuos, mas atos simbólicos que desafiam o significado do futuro contra a inércia do presente. 

  Quando os ponteiros do relógio batem meia-noite, eles não apenas marcam um tempo, mas representam uma passagem, autorizam socialmente a esperança, legitimam o desejo de que o que não foi, possa vir a ser. No entanto, essa esperança coexiste com a disciplina do tempo produtivo, com o relógio que rege os dias de trabalho, os salários e a produção.

O mesmo instrumento que marca o tempo da festa, regula a exploração; a mesma medida que celebra o início ordena a obediência.

  Ali, revela-se a dialética do tempo, vivenciada tanto como libertação quanto como mandato. O ano novo amplifica essa ambiguidade porque concentra expectativas privadas e promessas públicas, reflexões íntimas e pronunciamentos oficiais.

Somos convidados a pensar no futuro como a soma de vontades individuais — aprimorar hábitos, alcançar objetivos — enquanto as estruturas que condicionam essas possibilidades permanecem ocultas. 

  Assim, o calendário pode se tornar uma desculpa: se a vida não mudou, diz-se, faltou esforço; se a felicidade não chegou, faltou persistência. Mas também pode ser uma ferramenta crucial se compreendido como uma convenção histórica, um acordo que pode ser reinterpretado. Quando os ponteiros do relógio giram, não ditam o destino; indicam uma medida que a sociedade escolheu e que a sociedade pode discutir. 

  O novo ano, portanto, é valioso porque abre uma conversa coletiva sobre o tipo de tempo que queremos habitar. Será um tempo de repetição acelerada, onde cada ciclo reproduz as mesmas desigualdades sob novas formas, ou um tempo de transformação, onde a memória do passado influencia decisões diferentes? A emoção que essa mudança de data desperta não é apenas nostalgia ou simples otimismo; é a percepção, por vezes confusa, de que o tempo é uma arena de luta. 

  À mesa da família, na praça da cidade, no trabalho, as histórias se entrelaçam: o que se perdeu, o que se espera, o que se promete. A dialética dos ponteiros do relógio ensina que não há progresso sem consciência do tempo, nem novidade sem uma ruptura crítica com o dado. Celebrar o ano novo pode ser um ato de consumo vazio ou um gesto de resgate do tempo.  

 Depende de aceitarmos o relógio como nosso mestre ou de o abraçarmos como uma linguagem. Nessa fronteira ilusória entre o que termina e o que começa, a sociedade olha para si mesma no espelho do calendário e se pergunta, ainda que por um instante, o que faz com o seu tempo e quem decide o seu rumo.

Autor: Fernando Buen Abad

Fonte: TeleSUR

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