domingo, 18 de janeiro de 2026

TOMO MMXCIV - Sonhos de Burguês, Provido de Brasil, Mas?


Em uma reunião quase rotineira entre amigos, voltei a repetir uma expressão que, desde jovem, carrego na memória. Foi o camarada Aristides, lá pela metade da década de sessenta, quem me apresentou ao PCB e ao hino da Internacional. Naquele dia, sem expectativa alguma, pronunciei pela primeira vez: “Chegaremos um dia à nação Terra.”

Aristides, já um sessentão, debruçado sobre o torno mecânico — o primeiro que eu havia visto — respondeu com calma:

“Menino, a humanidade ainda reza. Não que rezar seja errado, mas essas rezas afastam o homem de si mesmo. Nunca o aproximaram de um Deus qualquer.”

Comecei a trabalhar na metalúrgica em fevereiro de 1967. Em agosto, fui designado para ajudar Aristides, e foi nesse contexto que a conversa aconteceu.

Agora, quase sessenta anos depois, percebo como aquela frase continua ingênua. Raramente escrevo ou falo sobre ela, exceto quando a reconheço nas entrelinhas de Star Trek. Fora isso, silêncio quase absoluto.

Não foi uma frase para me distrair do impossível. Ela nasceu carregada das memórias da Segunda Guerra Mundial. Aristides dizia que o maior erro foi permitir que os trabalhadores ajudassem suas burguesias a travar a guerra. O nazi-fascismo era, sem dúvida, um inimigo terrível, mas o preço pago foi a desarticulação da classe trabalhadora — consequências que jamais se apagaram.

Talvez por isso eu tenha abandonado a expressão “nação Terra”. Mas, ao ver no último 07/08/25 brasileiros empunhando bandeiras do “grande irmão do norte” e até bandeiras híbridas de Israel e Brasil, percebi novamente o sentido das palavras de Aristides: essas rezas não levarão o homem a Deus algum.

Um pouco de sociologia, ainda que com sessenta anos de atraso, pode ser útil.

Nos anos sessenta, no chão de fábrica, além do primário completo, alguns tinham diploma do SENAI. Aristides, autodidata, destoava dos demais. Nenhum dos técnicos formados fazia parte do PCB. Alguns eram críticos da ditadura, mas apenas isso.

A ditadura apodreceu, assim como a narrativa da escravidão que nos foi vendida na escola: a princesa Isabel como heroína da “nobreza áurea”. Na verdade, o fim da escravidão foi ditado pela fome de lucros das tecelagens inglesas, que precisavam transformar os trabalhadores rurais brasileiros em exército industrial de reserva. O suposto humanismo inglês estava muito longe de ser nobre; era apenas pragmatismo econômico.

Se um dia existir uma burguesia nacional não entreguista, talvez ela surja semeando candidaturas improváveis. Mas, por ora, isso não passa de sonhos de uma noite de verão — de uma burguesia que, hoje, simplesmente não existe

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