ENTRE DEUSES, VOTOS E MEMÓRIAS
No final dos anos cinquenta, o Deus da igreja católica se distinguia do Deus dos evangélicos por detalhes que, aos olhos de uma criança, pareciam sutis: o culto semanal único, a ausência do dízimo, a batina do padre e o modo como se tratavam as pessoas. No catolicismo, os homens casados eram “seus”, as mulheres “donas”, os solteiros “moços e moças” — todos chamados pelo nome de batismo. Já entre os evangélicos, então representados apenas pela Assembleia de Deus Ministério de Belém, o porte da Bíblia era um traço de identidade que só outros crentes reconheciam.
Eu não era crente. Jogava bola. Não era “irmão”, nem entre as crianças da mesma idade.
De 1950 até minha primeira eleição obrigatória, em 1972, falar sobre política era proibido. Para mim, por imposição da militância; para os outros, por aceitação silenciosa da censura. Naquela eleição, os evangélicos votaram majoritariamente na ARENA. Os católicos se dividiram entre o MDB e o voto nulo — este último, a escolha da maioria dos trabalhadores com alguma consciência sindical.
Nem mesmo o apodrecimento da ditadura afastou os evangélicos do conservadorismo político. A mudança só começou com a chegada de uma “certa liberdade sexual”, que abriu brechas na forma de pensar.
Essa abertura, ainda que tímida, se expandiu até os protestos de 2013. A partir daí, os evangélicos — já não mais uma minoria — passaram a se alinhar com a direita política. Os católicos, por sua vez, mantinham saudades das batinas e das missas em latim.
A diferença entre os dois grupos é clara: de um lado, o Cristo, filho de Deus, socialista assumido, defensor da liberdade e da igualdade. Do outro, os que não distinguem o Novo do Velho Testamento, e veem tudo como uma sequência do nada.
Nada para a humanidade, tudo para um Deus que distribui privilégios a uma parcela seleta — aquela que, desde o berço, herda terras e poder. À maioria, resta pagar os impostos de César e esperar por um paraíso no pós-morte.
Desde os cinco anos, minha leitura freireana já percebia a separação entre o Deus da Bíblia e o deus dos conservadores. Estes, identificados como evangélicos, mas que, na verdade, seguem um deus que nunca leram de fato.
LEITURAS FREIREANAS
De leitura, conheci Freire,
Até antes de aprender a ler,
Já que segundo Freire,
A leitura do mundo precede a leitura da palavra.
Na leitura do mundo,
Me colocou em choque,
Com os radicais religiosos,
Ainda antes dos cinco anos.
A leitura do mundo,
Nos mostraram um choque,
Entre católicos e protestantes "crentes",
Ainda aos cinco.
Os protestantes, que se chamavam de irmãos,
Irmãos, só se fossem crentes.
Ah, neste tempo, só da assembleia de Deus,
Início dos anos sessenta,
Conhecemos "A BRASIL PARA CRISTO",
Irmão de deputado Manoel de Melo,
Cassado por "corrupção" pela ditadura,
Mas, a censura, construiu o discurso de perseguição.
Meus oito anos, e desinteresse,
Nos fizeram desinteressar.
Ah, nas, irmãos para evangélicos,
Nunca perdoaram os negros,
A não ser os convertidos,
Se não fossem, deixavam de ser irmãos,
Para ser só macumbeiros.
Santo Semfé

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