segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

TOMO MMXCV - Voltas de um Mundo, que Não Dá Voltas



As voltas que o mundo dá em torno do Sol não são percebidas como voltas reais por nossos sentidos. Afinal, estamos fisicamente presos a este planeta enquanto ele gira.

Para compreender isso, é preciso revisitar os tempos dos nossos “dessaberes” — aquele período em que acreditávamos que a Terra era fixa no céu e que o Sol girava ao redor da nossa casa, desaparecendo no Japão para fazer a noite acontecer.

Naqueles tempos, nem luz elétrica havia. Chamávamos de “meus luz elétrica”, sem espanto. Sem energia, sem televisão, o mundo nos chegava pelas ondas do rádio. A abstração era limitada: Galileu Galilei era inimaginável, e a ideia de uma Terra girante, inadmissível.

Quase três quartos de século depois, pasmem: a hipótese da Terra plana ressurge. Não por falta de conhecimento, mas por escolha deliberada pela ignorância. Como as “forças ocultas” que fizeram Jânio renunciar, a negação do saber sempre encontra terreno fértil onde há ausência de imagens do planeta, fusos horários, ou jornalismo televisivo.

Naqueles tempos, as rádios falavam em comunistas, as igrejas também. Diziam que os comunistas tomariam as casas do povo — embora o povo sequer tivesse casa. As igrejas, majoritariamente católicas, eram lideradas por padres que, antes de sabermos o que era batina, pareciam homens de vestido.

Esses líderes religiosos afirmavam que Deus proibia os humanos de aprender que dividir o pão poderia ser uma prática estatal de redistribuição de renda. Para eles, só a filantropia era permitida — e, curiosamente, os pobres deveriam praticá-la sem publicidade, enquanto os ricos se deixavam fotografar, transformando a caridade em espetáculo.

Por trás de todos esses “não saberes”, ontem e hoje, há sempre alguém lucrando. Igrejas, sejam católicas ou evangélicas, dependem da ignorância para manter suas verdades absolutas. Questionar essas verdades ameaça a indústria dos bancos de igreja. O saber científico afasta o povo dos cultos. Quanto menos o povo sabe, mais generosos são os dízimos.

Se for preciso que a Terra seja plana, que vacinas façam mal, que a divisão do pão seja monopólio das religiões — tudo bem. Porque, se o povo aprender que quem realmente toma sua casa é quem o impede de ter saberes e direitos, o mundo finalmente começaria a dar voltas.

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