sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

TOMO MMXCI – UM XÁ QUE REZA PAH LEVA



O título joga com o trocadilho da expressão lusitana “Pá”, eternizada por Chico Buarque em Fado Tropical: “Foi bonita a festa, pá, cá estou carente, manda novamente algum cheirinho de alecrim”. A referência poética antecede a Revolução Iraniana de 1979, mas dialoga com outro marco histórico: a Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974.

Nos anos 1960, o Irã — ou Iran, como grafado internacionalmente — era governado por Muhammad Reza Pahlevi, o Xá. Mais do que um líder nacional, ele funcionava como interventor dos interesses das petrolíferas anglo-americanas, mantendo o país sob rígido controle e sufocando até mesmo a dimensão religiosa, em uma autocracia islâmica. No Brasil, a imprensa alinhada à lógica da Guerra Fria vendia as tiranias do Xá como se fossem pró-soviéticas, conquistando simpatias internas e distorcendo o debate público.

Vale lembrar que, além da Revolução dos Cravos em Portugal, o Brasil vivia sua própria ditadura militar, feroz e sanguinária, apresentada oficialmente como fruto de uma “revolução”. Nesse contexto, sobreviventes da repressão — nem sempre exilados ou clandestinos — buscavam reorganizar forças políticas. Entre elas, o movimento “João Fresador”, que pretendia recriar um PSB autêntico, distinto do partido registrado sob o número 40 e também diferente do PDT, aceito pela ditadura.

É nesse cenário que surge a figura de Lula, ainda não o Luiz Inácio Lula da Silva que se tornaria presidente, mas o irmão de Frei Chico, sindicalista respeitado. Entre nós, militantes, Lula recebia o apelido de “Aiatolula”, numa referência direta ao aiatolá Khomeini, líder da Revolução Iraniana.

O Xá, interventor das petrolíferas, simbolizava um padrão de governos impostos por golpes de Estado em toda a América Latina, especialmente na segunda metade do século XX. Não se trata de comparar com a situação da Venezuela sob Maduro, mas de reconhecer a constante interferência do “grande irmão do Norte” para garantir a supremacia política e econômica das elites centrais.

A novidade, naquele momento, era a escolha quase inevitável: entre cordialidade e barbárie, não havia dilema real. Lula, irmão de Frei Chico, despontava como liderança sindical. Mas a discussão que permanece é sobre sua posição política: não de esquerda radical, mas de centro. Reconhece-se que seria deplorável o retorno da extrema direita, com o fim de programas sociais que deveriam ser políticas de Estado. Contudo, a gestão de centro, rotulada como “esquerdista” pela mídia nada independente, limita avanços humanísticos e gera uma contradição curiosa: o “pobre de direita”.

Esse fenômeno, de pessoas que se identificam com a direita por acreditarem ser “anti-sistema”, é tão plausível quanto um elefante voador — exceto nos desenhos da Disney. Uma anomalia política que revela os paradoxos da democracia brasileira e a dificuldade de construir um projeto verdadeiramente emancipador.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

SBP em pauta

DESTAQUE

GUERRA CONTRA AS DROGAS: A velha ladainha americana para intervir na América Latina

Desde o seu início, na década de 1970, a guerra às drogas promovida por Washington na América Latina tem sido alvo de controvérsia e debate....

Vale a pena aproveitar esse Super Batepapo

Super Bate Papo ao Vivo

Streams Anteriores

SEMPRE NA RODA DO SBP

Arquivo do blog