Do Mundo de Meu Nascimento
Nasci em 20 de outubro de 1952, numa já inexistente Vila Vitória. Daquela vila, passando por três casas na Brasilândia, até a chamada “pré-adolescência”, parecia não haver mudança possível. O mundo era estático — ou assim parecia. Mas, ainda nos tempos escolares, começaram as greves por direitos, os pleitos por um aumento real do salário mínimo. E, junto com isso, veio a reação.
Meu pai, janista convicto, reclamava da renúncia de Jânio, dos parlamentares e do golpe branco do parlamentarismo — mais um dos muitos golpes de Estado da história brasileira. Assim como o de 2016, esse também não foi oficialmente reconhecido como golpe. Naquele episódio, o vice-presidente estava na China, e havia algo de podre no ar.
Desde então, a história oficial do Brasil pareceu não ter história. Tornamo-nos um apêndice do império do Tio Sam — um apêndice em apendicite, infeccionado, mas ainda parte do corpo. As elites vendiam essa relação como simbólica, mas simbólica apenas para elas. Enquanto mandavam, quem ousasse divergir, ainda que em pensamento, era pendurado num pau-de-arara. Melhor nem saber o que isso significa.
Como o Brasil “oficial” parecia não ter história, foi a própria história que arrancou a constituinte que criou a Constituição Cidadã. Esse ato despertou um Brasil até então considerado inexistente.
Antes de chegarmos ao mundo da velocidade do tempo, há aquela imagem congelada: Jânio na China, país recém-saído de uma revolução socialista. Um socialismo que despertava pânico no corpo — e, instantaneamente, no apêndice.
Minhas seis décadas de vida se passaram com as elites brasileiras vivendo como apêndice do império do mal. O mundo real tentava existir, enquanto a chamada classe média — ou melhor, a “classe mérdia” — orbitava como uma lua de Plutão, acreditando ser satélite natural do Tio Sam, mas a bilhões de quilômetros da Terra.
No mundo deste ano cristão de 2026, o gestor hitleriano do império do mal sai da China, moralmente derrotado. E, nas terras tupiniquins, aquilo que nunca foi classe média ainda tenta vender a ideia de que devemos seguir cegamente os interesses do Tio Sam — sem perceber que o mundo gira em outra rotação, inclusive na percepção do tempo.
O tempo voa. O império do mal perdeu importância. O Brasil, neste Lula 3, já não é um satélite natural ianque. O mundo continua capitalista, mas isso não significa apenas que deixamos de ser colônia; significa também que o apêndice precisa se separar do corpo antes que este vire defunto.
Economicamente, nunca houve relação simbólica — apenas uma relação parasitária. O corpo maior, o Tio Sam, sempre explorou corpos menores, com a ajuda das elites locais e da submissão da inexistente classe mérdia. O Tio Sam certamente ainda não morreu, mas nós precisamos aprender, enfim, a viver.
DO MUNDO INSTANTÂNEO AO INSTANTE DO MUNDO
Se ando, "mentalmente na velocidade da luz",
Mas, o mundo, que me parece fixo,
Viaja o mundo em dois sentidos,
Mas, lento, de rotação, "lento",
Mil e setecentos km por hora,
Mais rápido, translação, aí,
Cento e sete mil, na minha percepção,
Este insano mundo, "parado".
Mas, o papo aqui, é de percepção,
Então viajo, no tempo, a um tempo.
Lá nos anos cinquenta,
O dia parecia ter cinquenta horas,
Não que o relógio houvesse,
Mas, se houvesse, cinquenta horas.
Muda os anos, não a década,
Não muda, porém, a percepção do tempo.
Mudando a década, energia e rádio,
Entra a bola de borracha,
Entram as bolinhas de goude,
O tempo não acelera.
Vem a leitura e a televisão.
Aí, às sequências de aceleração.
O dia de cinquenta horas,
Vem para as vinte e quatro do relógio,
Mas, muitas vezes as sequência de fatos,
Não é bem o dia, é o ano,
Que parece passar num piscar de olhos.
Anesino Sandice)

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