quinta-feira, 21 de maio de 2026

TOMO MMCCXXIV E NÓS AINDA PAGAMOS PELA FOTO


O Erro Original

Sou constantemente levado a uma viagem mental pelo tempo. Nela, revivo a frustração de não conseguir fazer com que as pessoas próximas abrissem os olhos para os erros de um ontem qualquer — erros que, somados, construíram os equívocos do presente e perpetuaram os enganos de sempre.

Mas qual foi, afinal, o meu erro original?
Foi não conseguir convencer as pessoas próximas a não votarem nos candidatos que criaram o centrão.

Esse erro de 1986, na eleição da Constituinte, está por trás de todos os nossos carmas atuais. De lá para cá, atravessamos a emenda da reeleição, o mensalão, e chegamos à prisão do meu amigo Zé Dirceu — que, ironicamente, nada teve a ver com o mensalão.

Antes do “filhote de serpente” virar serpente, há muitos capítulos. Alguns saltos no tempo são inevitáveis — afinal, a falta de predileção pela leitura exige atalhos. Um deles é o esquecimento da não regulamentação das taxas de juros em 12%, origem dos choros da extrema direita diante das altas taxas atuais.

Voltando a 2005, o julgamento do mensalão e a prisão de Zé Dirceu não foram o fato mais grave daquele momento. O verdadeiro problema foi a redução da já pequena bancada progressista. Como nunca houve maioria, nossas lembranças raramente alcançam o minguar do humanismo parlamentar.

Mesmo com vitórias majoritárias, o progressismo foi se esvaindo, e as concessões aumentaram. Concede-se sempre o mínimo — o mínimo programa possível.

Os anos mudam, mas o minguar das forças progressistas permanece. O crescimento das forças direitistas, embaladas pelo simpático nome de centrão, pavimentou o golpe contra a presidenta Dilma.

Minha incompetência para o convencimento teve múltiplos aliados: as frações conservadoras das igrejas — que de conservadoras não têm nada — e a quase totalidade das mérdias entreguistas, sempre prontas a dizer “amém” aos patrocinadores.

Assim, o minguar do humanismo criou as condições para o golpe de 2016, que prosseguiu com a prisão de Lula por “crimes não determinados”. Essa prisão, somada às campanhas merdiáticas, levou à eleição do bozo em 2018.

A farsa caiu, Lula foi libertado e voltou à presidência. Mas o enfraquecimento do progressismo parlamentar abriu espaço para nova tentativa de golpe — o 08/01/23. Os golpistas acreditavam na impunidade. Só que não.

Esse “só que não” tirou o bozo derrotado de 2022 da disputa. Seu filho, o 01, herdou o bastão, mas as revelações das podridões e o entreguismo dos financiadores da mérdia o levaram a buscar uma foto de campanha “entreguista”. A foto existe — e tem o mesmo cheiro da prisão de Lula.

Como toda dúvida traz certezas, o herdeiro 01 fez o Senado “pagar” uma visita a um prisioneiro de tornozeleira. E, inevitavelmente, terá de prestar contas da viagem ao bozo ianque.

A cena pode ter se limitado a uma foto. Mas a conta? Essa, certamente, virá.

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