sexta-feira, 8 de maio de 2026

TOMO MMCCIV - OS MISTÉRIOS DE UM PURÊ DE FEIJÃO


Como brasileiro, é quase impossível imaginar um prato de feijão sem arroz. Mas, se olharmos além da nossa mesa, veremos que cada cultura molda sua alimentação conforme o que o solo oferece — ou conforme os costumes trazidos pelos invasores. Sim, invasores, não imigrantes. Os primeiros europeus que pisaram neste continente vieram para dominar, não para conviver.

Cinco séculos depois, ainda ecoam as violências cometidas contra os povos nativos. Para que essas violências se consumassem, foi essencial o domínio da engenharia bélica — expressão máxima da predisposição humana para a guerra. E, mesmo que o cinema do “velho oeste” tenha nos ensinado a odiar o indígena, a verdade é que o invasor sempre foi o outro. Se não fosse o componente religioso, talvez nossa percepção da história fosse menos distorcida.

Nos filmes, o feijão com bacon é o alimento dos conquistadores. Hoje, a feijoada enlatada é seu herdeiro simbólico — um produto da mesma lógica que transforma cultura em mercadoria. Mas esta conversa não é sobre feijão. É sobre guerra. Sobre o gosto amargo da dominação que se disfarça de tradição.

À mesa, diante de um prato de purê de feijão, sentam-se dois homens: um retirante nordestino, descendente de invasores, e um herdeiro da cultura bélica europeia. O primeiro, moldado pela seca e pela servidão aos “fidalgos de sangue azul”, carrega no corpo as marcas das violências que também se repetem dentro das casas — contra as mulheres, contra os pobres, contra os esquecidos. Violências tão naturalizadas que as próprias vítimas as ignoram.

O segundo homem, herdeiro da supremacia das armas, vê a guerra como algo natural, quase divino. Sua fé o autoriza a matar, a roubar, a subjugar. A religião, que deveria ser ponte, torna-se justificativa. O deus da paz é transformado em patrono da conquista.

Por trás desse olhar bélico, há uma lógica perversa: a crença de que o mais forte tem direito sobre tudo — inclusive sobre a vida dos mais fracos. Os excluídos, por sua vez, não têm inimigos; têm apenas uns aos outros, como muletas mútuas para suportar o peso da exclusão.

E assim, mesmo quando o invasor perde a guerra que iniciou por ganância, ele ainda exala o perfume da vitória. Já o retirante, herdeiro da resistência silenciosa, sabe que as armas dos poderosos continuam ativas — mesmo quando dormem nos coldres.

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