A leoa que eu imaginava homenagear por décadas não era leoa nenhuma. Era uma mulher de muitos estágios, de muitas dores e de uma força que nunca precisou de rugido.
Nas minhas primeiras lembranças — aquelas “tenras memórias” que dizem nem existir — vejo Dona Maria Aurora e minhas irmãs. Não lembro de fome, ainda que o dinheiro fosse escasso; lembro da mamadeira pronta, do cuidado silencioso, da presença constante.
Saímos do interior e chegamos à Vila Brasilândia. Se a vida não melhorou financeiramente, o ânimo parecia outro. O rádio dos vizinhos vendia uma imagem de mãe que nada tinha a ver com Dona Maria Aurora — nem com as mulheres que limpavam as casas das “mães perfeitas” que o rádio e, depois, a televisão em preto e branco, exibiam. Essas mães da tela nunca eram negras, nunca tinham mãos calejadas, nunca enfrentavam triplas jornadas.
A mãe ideal que nos ensinaram a admirar era invisível dentro de casa. A violência não estava nos gritos, mas no cansaço. No suor que exalava perfume de marcas baratas. No trabalho infantil que parecia natural. No perfume do mascate, que jamais teve o cheiro doce dos comerciais.
As leoas reais não eram as mulheres das propagandas. Eram as que limpavam as casas das outras, trocavam as fraldas das crianças das outras, e ainda eram cobradas por não serem como as outras. Nós, nos anos sessenta, queríamos delas o mesmo carinho das mães da TV — e isso também era uma violência, ainda que não tivesse nome.
Essas mulheres foram ensinadas a ver a maternidade como privilégio. E as que não podiam ser mães, biologicamente ou por escolha, sofreram outras violências. As mulheres da sopa de letras — LGBTQIA+ — continuam a sofrer, por não caberem no molde da “mãe ideal”.
Mas talvez a maior violência seja a expectativa de que toda mulher nasça assistente social, psicóloga, enfermeira e santa. Que tenha um vale para cada carência humana e uma dose infinita de carinho para cada dor alheia. Essa expectativa é uma prisão disfarçada de amor.
As leoas invisíveis continuam rugindo — não com som, mas com resistência.
AS LEOAS INVISÍVEIS - LEONICIDADES:
Toda mulher é uma leoa
Mas, mata um leão por dia,
E ainda deixa uma para o dia seguinte,
Porém, quais são estes leões?
Ha, sem dúvida, os leões das triplas jornadas.
Há, sem duvida, os leões da indiferença.
Há, sem dúvida, os leões da insignificância.
Afinal, toda mulher é meio uma assistente social,
Ah, quem são as assistentes social, que vive em cada
mulher?
Toda assistente social, nasce com umas cartelas de
vales:
Há, os vales leite, leia-se "mamadeiras
prontas;
Toda assistente social, nasce com uma dose cavalar
de carinhos,
"Dados" sem a menor necessidade de
contrapartida.
Em síntese, toda mulher, não mata nenhum leão,
Já, que na verdade todas as mulheres,
São grandes leoas.
Lembrem-se, são as leoas que caçam,
Isto seria uma regra na natureza,
Nós, os humanos beneficiados pelo terceiro cérebro,
Podemos e temos a obrigação de evoluir.
Nisinha Vamos)

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