Os Dois Brasis
Nesse país, vigiar é verbo cotidiano. Vigia-se a cor da pele, o CEP, o modo de andar. Pessoas cuja pele “parece suspeita” vivem em endereços que não ajudam muito. E, para a felicidade dos que vendem a suspeição, há quem compre — seduzido pela religião, pela promessa de salvação, mesmo tendo a mesma cor de pele e o mesmo CEP dos vigiados.
Para esse Brasil faccioso, a inflação é galopante, o desabastecimento é real, e o Judiciário vive uma “ditadura”. O cenário exige, segundo eles, um pronto restabelecimento da ordem. Que venha a monarquia! Que se convoque o laranjão maluco, que nomeará um miliciano expulso do Exército como interventor — e, se ele adoecer, outro virá, submisso. Falta apenas a pérola final desse enredo sombrio.
A eleição de alguém fora do covil das elites, que nunca ousaram sair da caverna da ilusão, não ameaça o poder dessas elites submissas. Mas, se os pagadores de dízimo perceberem que o dízimo mantém o país no atraso, os patrões dessa elite podem se enfurecer.
DE NÓS E DELES
Quando sou eu,
Há o rigor da lei,
"Neste eu, leia-se",
Ops, some-se, os meus iguais,
Ou seja, some as pessoas de pele parda,
Some, as pessoas de pele escura,
Some, as pessoas de pele vermelha,
Mas, some também, os:
Economicamente excluídos,
Aquelas pessoas, cujo o CEP,
Mesmo quando há números iguais,
Já nos detalhes?
Para o nós, o nicole,
Grava vídeo em fundo preto,
Ops não era bem para nos,
O vídeo do nicole,
O vídeo do nicole, tinha CEP,
Era exclusivamente para proteger eles.
Anesino Sandice

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