segunda-feira, 18 de maio de 2026

TOMO MMCCXIII Um Pangaré Master


Há, e sempre houve, um cheiro de armação no ar. Para quem aprecia teatro, a cena recente foi quase uma encenação — teatral demais para ser coincidência. Não é preciso recorrer a teorias da conspiração para perceber o estranhamento. Basta observar a ausência de sangue numa toalha branca.

O salto no tempo é impossível: quatro anos de desgoverno, mais de setecentas mil mortes, e uma tentativa de golpe de Estado tão absurda quanto covarde. A protagonista da tragédia, “esperta” em sua covardia, fez da fuga sua força.

Os fatos são claros: houve uma invasão ideológica das igrejas evangélicas, mobilizando o rebanho para reeleger um verdadeiro “desgestor”, como se a capacidade de produzir tragédias fosse virtude. Tudo embalado pelo velho medo do comunismo — medo injustificável, já que a essência do comunismo se aproxima dos ensinamentos do Cristo, enquanto seus detratores se dizem cristãos “anti-Cristo”.

A confusão histórica é conveniente. A suposta perseguição a religiosos em regimes comunistas nunca foi explicada: os “perseguidos” eram, em muitos casos, os mesmos que abençoaram os pelourinhos onde o povo negro era chicoteado até a morte. E, quando um escravizado se rebelava, nenhum fazendeiro cobrava compensação do Estado. O exemplo basta para revelar a hipocrisia.

A tentativa de golpe, ainda que mal articulada, baseava-se na crença de que pastores controlavam os votos de seu rebanho. No parlamento, essa lógica funcionou — e estimulou moralistas caricatos, como o “instrutor de depilagem anal”, a apoiar o golpe, mesmo estando bem longe do Distrito Federal.

A força “sobrenatural” do questionamento das urnas escondia algo maior: uma questão Master. Entre as estranhezas, a autorização para criar uma instituição bancária que captava milhões de fundos previdenciários de estados e municípios alinhados ao tal pangaré Master. Só do Rio de Janeiro, foram desviados R$ 1 bilhão.

Pouco depois das denúncias, o candidato “defecador” em debate cobrou o repasse do montante faltante — R$ 134 milhões — para financiar a suposta ascensão do pangaré Master. Como se a teatralidade de uma fala anterior de seu irmão fosse mero acaso. A ideia era simples e perversa: um atentado poderia garantir a vitória eleitoral.

R$ 134 milhões para quem já havia torrado R$ 1 bilhão parece um repasse “justo” — ainda que profundamente imoral.

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