domingo, 10 de maio de 2026

TOMO MMCCVI MULHERES: ENTRE VÍTIMAS E HEROÍNAS

(


O intenso brilho apagado de um Cristo)

Quem é, afinal, a grande vítima das narrativas bíblicas?
Antes que me digam — e eu concorde — nove em cada dez humanos são excluídos. Excluídos desde sempre das benesses, não importa o modelo econômico ou o tempo histórico. Mas entre os excluídos, há um grupo que carrega uma exclusão ainda mais profunda: as mulheres.
Elas não foram apenas marginalizadas; foram privadas até do direito ao prazer. Segundo a leitura literal da Bíblia, o prazer teria sido “descoberto” por Eva — e, desde então, condenado.

A grande mentira travestida de verdade absoluta é esta: se a humanidade tivesse realmente nascido de Adão e Eva, seríamos todos iguais, idênticos, frutos de um incesto universal. Mas Gênesis 4:16 revela outra história — Caim vai à cidade de Node e volta com uma mulher. Ou seja, já havia cidades, já havia gente, antes do suposto casal original. Essa passagem, ignorada por conveniência, desmonta o mito da pureza racial e enterra o sonho supremacista de uma elite branca.
A leitura fragmentada da Bíblia, criminalizando quem ousa lê-la por inteiro, mantém a humanidade sob o chinelo de um por cento — enquanto os nove por cento intermediários justificam a opressão dos noventa restantes.

Muito além da exploração econômica, há a submissão sexual e social. No Brasil, até poucas décadas atrás, mulher “de respeito” não ia a bares. Sua sexualidade era confinada ao casamento — muitas vezes de fachada. Enquanto o marido se perdia em bordéis, ela era reduzida à função de parideira passiva, apagada em silêncio.

A ditadura apodreceu, e a mulher conquistou protagonismo. Mas o mesmo país que escreveu a Constituição Cidadã viu nascer o retrocesso. Da emenda da reeleição de FHC ao mensalão, da crise dos R$0,20 à ascensão da extrema direita, o Cristo do Velho Testamento foi reabilitado — não o Cristo da compaixão, mas o da espada.
E nesse cenário, a mulher até pode ir ao bar, desde que não diga “não”. Caso diga, há sempre um “homem de bem” pronto para justificar o crime pela “legítima defesa da honra”.
Dentro das igrejas conservadoras, a misoginia se disfarça de fé. E quando uma pastora denuncia, é chamada à briga — como se o púlpito fosse um campo de guerra.

O Estado laico da República parece ter sido apagado por decreto. Ministros indicados por convicção religiosa, não por mérito jurídico, reforçam o retrocesso.
Desde a crise dos R$0,20, a vocação religiosa invadiu a política, e as conquistas sociais sofreram um golpe.
E, como sempre, quem paga primeiro é a mulher.

Para que o retrocesso se consolide, é preciso ignorar o início de Gênesis e esquecer as lições de Cristo — aquele que pregava justiça e igualdade, inclusive para as mulheres.
Talvez porque Cristo, ao contrário de Adão, teve uma mãe.

Feliz Dia das Mães.

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