Vivemos tempos em que a literatura — especialmente aquela de cunho arqueológico — nos serve como ferramenta para imaginar os caminhos que a humanidade percorreu até aqui. Infelizmente, muitos desses caminhos nos remetem à Idade Média — ou, como prefiro chamar, à “Idade Mérdia” — marcada pelo domínio absoluto da religiosidade sobre o pensamento e a vida cotidiana. E, curiosamente, esse império da fé ainda ecoa em nossos dias.
Para cinéfilos como eu, há uma analogia poderosa na franquia Star Wars. Na série derivada "Andor", anterior ao episódio "Uma Nova Esperança", vemos um personagem condenado a uma prisão em uma lua distante. Lá, os detentos trabalham doze horas por dia, sete dias por semana, sem descanso, sem perspectiva de liberdade — a não ser pela morte. A ficção científica, nesse caso, reflete uma realidade sombria: a ascensão de um sistema opressor sustentado por uma religiosidade totalitária.
No século XXI, essa prisão imaginária parece ter se materializado. Vivemos sob o cerco de uma extrema direita — leia-se bolsonarismo — que propõe, ainda que de forma velada, uma jornada de trabalho extenuante: sete dias por semana, doze horas por dia, sem folga, sem aposentadoria. Tudo isso para manter os privilégios de uma minoria seletiva, enquanto os desprovidos dos meios de produção são empurrados para uma nova forma de servidão.
Na Idade Média, a Igreja Católica reinava soberana no Ocidente, incluindo o Brasil colonial. Castigos físicos eram comuns, especialmente contra os escravizados, cuja única chance de liberdade era a fuga para os quilombos — que, por sua vez, eram frequentemente exterminados por forças militares. Hoje, negacionistas — sejam eles da ciência ou da história — tentam apagar esse passado, como se fosse apenas ficção.
Mas não é. Rebeliões históricas, muitas vezes com a morte como única saída, foram fundamentais para conquistas como a abolição da escravatura. Ainda assim, o racismo estrutural persiste, roubando dos descendentes dos escravizados até mesmo o direito à memória de suas lutas. Na ficção, o herói costuma ter um final feliz. Na vida real, a liberdade é conquistada com sangue — e nem sempre é plena.
Foi a organização sindical que, no passado, permitiu avanços como a jornada de 48 horas semanais e o direito ao descanso dominical. Essa mesma organização foi duramente criminalizada pela ditadura, com apoio de correntes religiosas conservadoras que hoje alimentam os ideais da extrema direita. A última vez que esse tipo de pensamento ganhou força globalmente foi durante o nazi-fascismo, há cerca de oitenta anos.
No Brasil, a ditadura de Vargas só se aliou às forças democráticas após o afundamento de navios na costa brasileira — um gesto de sobrevivência, não de convicção. E mesmo em países tidos como "mecas da liberdade", como os Estados Unidos, vemos sinais preocupantes: o "anti-corintianismo", por exemplo, pode ser lido como um aceno ao autoritarismo, à intolerância, à exclusão.
Neste cenário trágico, os avanços tecnológicos — que deveriam proporcionar uma vida mais confortável para todos — são sequestrados por uma elite diminuta. Essa elite, muitas vezes sustentada por discursos religiosos, manipula o pensamento de amplos setores sociais, impedindo que a comodidade gerada pela inovação seja socializada.
P.S.: Foi a luta sindical que garantiu, no passado, a jornada de trabalho reduzida e o direito de ir à missa. Que não nos falte memória — nem coragem — para defender o que já foi conquistado.

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