sábado, 18 de outubro de 2025

A esquerda sem partido

Por Douglas Puodzius
A esquerda sem partido é uma das vertentes mais eficazes da chamada “quinta coluna” — aquela esquerda que a direita gosta. Ela se junta a outras expressões desse fenômeno, como a esquerda light, a esquerda anti-petista e a esquerda capitalista.
Todas compartilham um traço comum: fazem o trabalho sujo para a direita, muitas vezes sem perceber, como por exemplo; ao apoiar alternativas de terceira via que enfraquecem candidaturas viáveis da esquerda. Foi assim com os apoiadores de Ciro Gomes, Marina Traíra Silva/Aécio Neves e outros.
Essas "esquerdas" ajudam a transferir o ônus das pautas impopulares — aprovadas pela direita — para o colo do PT e de Lula. A direita impõe sua agenda, mas não paga o preço político pelo mal que perpetram.

A narrativa da falsa isenção
A esquerda sem partido se apresenta como crítica, independente, isenta. Seu discurso é o de que todos os partidos são iguais, todos os políticos são corruptos, e que só a sociedade civil organizada — leia-se ONGs e influenciadores — pode representar o povo. Essa retórica, que parece progressista, é na verdade uma armadilha. Ao negar a importância dos partidos políticos, especialmente os de esquerda, essa vertente enfraquece a organização popular e a luta de classes, favorecendo a manutenção do status quo.
O exemplo mais emblemático dessa postura foi em 2013. Movimentos que se diziam apartidários convocaram manifestações contra o aumento da tarifa de transporte público, mas curiosamente só em cidades governadas pelo PT. O metrô, gerido por governos estaduais de direita, foi poupado. A partir dali, a pauta se deslocou para a corrupção no governo federal, ignorando os escândalos da direita. Foi o início de uma narrativa que ajudou a desestabilizar o campo progressista.

Os influenciadores da crítica seletiva
Hoje, essa esquerda sem partido se manifesta através de influenciadores como Conde, Jones Manoel, Leandro Sakamoto, Daniela Lima, Alex Solnik, entre outros. Eles se autodenominam progressistas, radicais ou independentes, mas suas críticas são quase sempre direcionadas ao PT. Jones Manoel, por exemplo, acusa Lula de cortar verbas da educação, ignorando que esses cortes são resultado da pressão da direita e da disputa orçamentária imposta pelo Congresso. Conde afirma que todos os parlamentares são iguais, negando a diferença entre quem vota pela educação pública e quem a desmonta.
Esses discursos ignoram o contexto da luta de classes e tratam o governo Lula como se fosse um ente isolado, que decide tudo sozinho. Quando foi substituído o infame teto de gastos por um mecanismo menos cruel, essa esquerda sem partido acusou o PT de impor o arcabouço fiscal, como se não fosse uma medida possivel contra a resistência da direita. Atualmente, chegam ao ponto de afirmar que tem petistas contra a isenção do imposto de renda até cinco mil reais, sem considerar os embates internos e externos que moldam essas decisões e que é o PT quem esta defendendo e tendo de negociar essa pauta, bem como, acontecera com o regime contrario a ordem trabalhista do "seis por um".

Os onguistas apartidários: a face institucional da despolitização

Outro braço importante da esquerda sem partido são os onguistas apartidários. São organizações que se dizem não ideológicas e apartidárias, mas que, na prática, atuam politicamente — muitas vezes em favor da direita. Algumas são ligadas a igrejas e assumem pautas conservadoras. Outras se promovem como progressistas, mas não têm qualquer constrangimento em apoiar políticos que atacam os direitos sociais.
É comum ver ONGs que denunciam os problemas das favelas, mas apoiam políticos que incentivam operações policiais violentas, que tratam comunidades como “invasões” e que trabalham para transferir esses territórios para o capital imobiliário. Há ONGs de educação e saúde que se dizem defensoras do povo, mas apoiam políticos privatistas que desmontam essas políticas públicas quando estão no poder.
Essas organizações se beneficiam da imagem de neutralidade, mas sua atuação revela alinhamentos claros. Ao se recusarem a assumir posições partidárias, elas se tornam instrumentos úteis para a direita, que pode contar com sua legitimidade social para implementar agendas regressivas sem enfrentar resistência organizada.

Os identitaristas apartidários: a fragmentação da luta
Uma das expressões mais sofisticadas da esquerda sem partido está nos agentes ligados às pautas identitárias — como racismo, LGBTQIA+, gordofobia, autismo, etarismo, entre outras. Embora essas causas sejam legítimas e urgentes, muitos de seus defensores atuam como se os avanços nessas áreas fossem exclusivamente fruto de movimentos sociais apartidários, ignorando o papel decisivo dos governos do PT.
É comum ver ativistas que exaltam conquistas como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), mas não reconhecem que as conferências que impulsionaram essas pautas foram organizadas e fortalecidas por governos petistas. Parlamentares do PT e movimentos ligados ao partido foram fundamentais para transformar essas demandas em políticas públicas. O mesmo vale para avanços nas pautas raciais, de gênero e de defesa das minorias.
Ao descolar suas lutas da política institucional, esses identitaristas apartidários enfraquecem a construção coletiva e ajudam a perpetuar a ideia de que partidos — especialmente o PT — não têm compromisso com essas causas. Essa postura fragmenta a luta social e abre espaço para que políticos de direita se apropriem do discurso da diversidade sem compromisso real com a transformação.


Conclusão

A esquerda sem partido, seja na forma de influenciadores, ONGs, identitaristas ou analistas internacionais, representa uma ameaça à construção de um projeto popular. Ao negar os partidos, ela nega o povo. Ao atacar seletivamente o PT, ela enfraquece a única força que ainda disputa hegemonia com o conservadorismo. E ao se esconder atrás da neutralidade, ela legitima políticas que aprofundam a desigualdade.
Mas sua atuação não se limita ao cenário nacional. Essa esquerda também se alinha, muitas vezes de forma dissimulada, às pautas do império. Ao rotular governos como os de Cuba, Venezuela e China como “ditatoriais”, ela reforça a narrativa imperialista dos Estados Unidos, que busca justificar sanções, bloqueios e intervenções sob o pretexto da defesa da democracia. Ignora-se o contexto histórico, a soberania dos povos e a luta contra o colonialismo — tudo em nome de uma suposta pureza ideológica.

Aliás, caberia a pergunta para esses pensadores que correm a rotular as tais ditaduras: Cubana, Venezuelana e Chinesa. Onde está democracia deles? Estados unidos? França? Inglaterra? Talvez, no Peru, que prendeu o candidato a ditador, segundo essa esquerda, e agora tem um verdadeiro democrata no poder. Não sabia? Por óbvio, depois da prisão do esquerdista Pedro, esse pessoal tirou o Peru de seu radar das ditaduras, bem como: A Líbia, a Síria, o Iraque e outros países que atualmente servem ao imperialismo. Faz-me rir!

Essa postura internacional reforça o papel da esquerda sem partido como linha auxiliar do conservadorismo global. Ao atacar os governos que resistem ao domínio imperial, ela enfraquece a solidariedade internacional entre os povos e legitima a interferência estrangeira nos destinos da América Latina e do Sul Global.
A verdadeira esquerda não se omite — ela escolhe um lado, e luta por ele. E esse lado é o do povo, da soberania, da justiça social e da construção coletiva. Contra o cinismo da crítica seletiva, é preciso reafirmar o compromisso com a transformação real.


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