sexta-feira, 5 de setembro de 2025

TOMO MCMLIX — Entre as Ilhas de Desenvolvimento e os Arquipélagos do Retrocesso

Durante uma dessas conversas que só acontecem com quem tem nome de verbo — meu amigo Durante — ele me trouxe, com sua habitual intensidade, a tal teoria das ilhas de evolução. Mas, cá entre nós, não vejo ali evolução humana propriamente dita. O que há é uma coreografia do desenvolvimento capitalista — ou, como prefiro chamar, “capetalista” — que se desenha em arquipélagos de privilégio, cercados por oceanos de exclusão.

📚 Schumpeter e as Ilhas do Capital

Joseph Schumpeter, economista austríaco que enxergava o capitalismo como um organismo em constante mutação, falava da “destruição criadora” — aquela ideia de que o progresso econômico nasce da ruína do que veio antes. Mas o que nos interessa aqui é como esse desenvolvimento se dá em ilhas: núcleos de inovação e riqueza que não necessariamente se comunicam com o restante da sociedade. São bolhas de avanço cercadas por vastos territórios de estagnação. E é nesse cenário que emerge a figura da deputada federal Célia Xakriabá.

🌱 Célia Xakriabá: Saber Ancestral e Ciência Política

Célia não é exceção. Ela é síntese. Educadora, ativista, doutora em Antropologia pela UFMG, e primeira mulher indígena eleita deputada federal por Minas Gerais. Em suas falas no Congresso, ela não apenas apresenta dados econômicos e ecológicos com precisão técnica, mas os entrelaça com saberes ancestrais, com a poética do território que é corpo, e do corpo que é território. É uma intelectual que transita entre mundos, sem perder o chão de onde veio — o Cerrado, o pequi, o canto dos pajés.

🎙️ Não é Caso Isolado: Raoni, Krenak e a Caneta como Arma

Lembremos que não estamos diante de um fenômeno isolado. O cacique Raoni, embora nunca tenha ocupado cargo legislativo, foi figura central na Constituinte de 1988, lutando pela demarcação de terras indígenas. Ailton Krenak, por sua vez, rompeu o silêncio de 127 anos dos indígenas na Academia Brasileira de Letras. A caneta, como bem disse Célia, pode escrever leis ou arrancar direitos. E é nesse embate que se desenha a disputa entre desenvolvimento e retrocesso.

🛐 O Bolsonarismo e a Moral de Púlpito

Enquanto isso, nas ilhas do retrocesso, o bolsonarismo se alimenta de uma moral que saiu do púlpito e se instalou nos partidos. Uma religiosidade política que promete ordem, mas entrega caos. E o mais paradoxal: são justamente os despossuídos — sem terra, sem meios de produção — que engrossam as fileiras dessa resistência ao progresso. Defendem um sistema que os exclui, como se o retrocesso fosse redenção.

🌍 Sem Meio Ambiente, Sem Meio de Vida

O que se esquece, nesse embate, é que não há economia sem ecologia. Sem água, sem floresta, sem biodiversidade, não há PIB que salve. O lucro do “capetalismo” pode até subir, mas a vida, essa sim, desce ladeira abaixo. E quando ela se extinguir, será tarde demais para arrependimentos.

🔍 Reflexão Final: Romper Bolhas, Regar Territórios

Sabemos que romper a bolha dos “pobres de direita” é tarefa hercúlea. Mas há esperança nas lideranças que entendem a interdependência das espécies, que sabem que cooperação ecológica é mais do que discurso — é sobrevivência. E que, como ensinou Célia, sem água, não há vida. Sem território, não há corpo. Sem memória, não há futuro.

Se quiser, posso transformar essa crônica em um artigo mais analítico ou até em roteiro para podcast. Quer seguir por aí?

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