“Nada justifica matar crianças”, diz Lula em discurso na ONU
Ao lado dos governantes francês e saudita, presidente brasileiro defende reconhecimento do Estado palestino e critica omissão do Conselho de Segurança
O presidente Lula discursou nesta segunda-feira (22) em Nova York, durante a Conferência Internacional para a Resolução Pacífica da Questão Palestina e a Implementação da Solução de Dois Estados, convocada pela França e pela Arábia Saudita. A reunião ocorreu um dia antes do início da Assembleia Geral da ONU, que será aberta nesta terça-feira (23) pelo brasileiro.
Logo no início, Lula cumprimentou o presidente francês Emmanuel Macron e o primeiro-ministro saudita Mohammed Bin Salman pela liderança no encontro e lembrou que a intenção da criação de dois Estados nasceu em 1947, quando a ONU aprovou o plano de partilha criado pelo brasileiro Oswaldo Aranha. “Naquela ocasião nasceu a perspectiva de dois Estados, mas só um se materializou”, lamentou.
Críticas a Israel e ao bloqueio da ONU
Em sua fala, o presidente brasileiro denunciou a ocupação de territórios palestinos e afirmou que a comunidade internacional não pode ignorar a limpeza étnica em curso. “Como falar em território diante de uma ocupação ilegal que cresce a cada novo assentamento? Como manter uma população diante da limpeza étnica a que assistimos em tempo real?”, questionou.
Segundo Lula, o conflito é “símbolo maior dos obstáculos enfrentados pelo multilateralismo” e a tirania do veto no Conselho de Segurança compromete a própria razão de ser da ONU. “Também vai contra sua vocação universal, bloqueando a admissão como membro pleno de um Estado cuja criação deriva da autoridade da própria Assembleia Geral”, completou.
Genocídio em Gaza
Lula classificou como inaceitáveis os atos terroristas cometidos pelo Hamas, mas frisou que não há desculpas para a reação desproporcional de Israel. “O direito de defesa não autoriza a matança indiscriminada de civis. Nada justifica tirar a vida de crianças. Nada justifica destruir 90% dos lares palestinos. Nada justifica usar a fome como arma de guerra, nem alvejar pessoas famintas em busca de ajuda”, denunciou.
E reforçou: “O que está acontecendo em Gaza não é só o extermínio do povo palestino, mas uma tentativa de aniquilamento de seus sonhos de nação.”
O presidente chamou atenção para a crise humanitária. Segundo ele, mais de meio milhão de palestinos não têm comida suficiente, número superior à população de cidades como Miami ou Tel Aviv. “A fome não aflige apenas o corpo, ela estilhaça a alma”, criticou.
Lula lembrou que o Brasil reconhece oficialmente a Palestina desde 2010, em seu segundo mandato. E acrescentou que o governo brasileiro se compromete a reforçar o controle sobre importações de assentamentos ilegais na Cisjordânia e a manter suspensas exportações de material de defesa que possam ser usados em crimes contra a humanidade.
Reforma do multilateralismo
Diante da omissão do Conselho de Segurança da ONU, Lula defendeu que a Assembleia Geral assuma responsabilidades. Ele apoiou a criação de um órgão inspirado no Comitê Especial contra o Apartheid, que desempenhou papel central no fim do regime racista da África do Sul.
“Afirmar o diálogo e a autodeterminação da Palestina é um ato de justiça e um passo essencial para restituir a força do multilateralismo e recobrar nosso sentido coletivo de humanidade”, concluiu, mostrando mais uma vez ao mundo sua capacidade de buscar soluções tendo a escuta e a paz como eixos centrais.
Publicado em 22/09/2025 19h08
Ricardo Stuckert

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