Recentemente, uma mulher foi arrastada por quilômetros sob um veículo. Qualquer leitura honesta torna difícil aceitar a justificativa de acidente. Ainda que se afaste, hipoteticamente, dessa hipótese, resta a especulação sobre a ausência de dolo — exercício que, se eu fosse da área do direito, talvez me coubesse. Não sou.
Prefiro viajar a um mundo fictício, onde a maldade seria apenas invenção literária. Mas desde criança aprendi que não é assim. Nas “guerras de mamonas”, os alvos preferenciais eram os cabelos crespos das meninas. Pequenos gestos, aparentemente inocentes, já carregavam a semente de uma sociedade misógina. A maldade, mesmo disfarçada de brincadeira, estava ali, normalizada desde cedo.
A cena que abre esta reflexão também dificultou o trabalho de uma repórter da chamada “mérdia colaborativa”. Essa mesma mídia, ainda que não responsável direta pelo ato brutal, tem sua parcela de culpa. Não pelo feminicídio em si, mas pela naturalização cotidiana dos ódios que alimenta. Em nome de uma eterna luta de classes, ajudou a construir um discurso de hostilidade contra organizações de trabalhadores e, por consequência, um afeto nada velado pelas violências discriminatórias que se multiplicam.
Na infância, a educação era clara: “meninas fazem os trabalhos domésticos”. Os meninos, supostamente, não eram afeitos a tais tarefas. Essa não era a realidade da casa número 14 da Rua Dois, mas era repetida à exaustão nas salas de almoço dos vizinhos e amigos. Assim se formava a cultura: pela repetição, pela naturalização, pela cumplicidade silenciosa.
Há, portanto, uma ligação inequívoca entre a pele dilacerada da jovem vítima e as escolhas da mídia colaborativa, somadas às educações sexistas às quais fomos expostos “ingenuamente”. É preciso reconhecer: a ingenuidade estava também em quem transmitia essa visão de mundo. Afinal, se aprendeu assim.
Eu aprendi. Mas não preciso ensinar.

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