domingo, 28 de dezembro de 2025

TOMO MMLXXIII - REPETIÇÕES


Cantorias, ditaduras e messias de ocasião

A sensibilidade de um artista, expressa em suas cantorias, costuma oferecer uma leitura única do mundo. Não necessariamente do mundo real, mas de um mundo possível, imaginado, sonhado. E, paradoxalmente, essa mesma sensibilidade pode conviver com a realidade dura de pessoas de boa índole que, em determinado momento, elegem um genocida. Um homem que tentou um golpe de Estado e que, como um psicopata — digo isso apenas como leigo, sem formação em psicologia — ainda insiste em se ver como vítima da justiça que o condenou.

Se a reflexão parasse aqui, já seria suficiente para agradecer às artes por nos ajudarem a enxergar além. Mas é preciso ir além: lembrar o papel fundamental que a música teve no enfrentamento da ditadura. Vandré, Chico, Milton, Belchior — nomes que ecoam como trincheiras sonoras. Suas canções foram resistência, foram denúncia, foram sopro de liberdade em tempos de silêncio imposto.

Ouvir Ponteio, Disparada e tantas outras, acompanhadas ao som de uma viola caipira, é revisitar a alma de um Brasil profundo. É falar de viola de cocho, de linguajares dispersos por rincões e brejões, de expressões que parecem esquecidas desde os tempos de escola e calças curtas. É reconhecer que a música, mais do que estética, foi ética: uma forma de dizer não ao autoritarismo.

Mas o Brasil não se resume à música. Há também as religiosidades que moldam os modos de pensar. E é nesse terreno que se revela uma contradição dolorosa: pessoas de boa índole, manipuladas por lideranças políticas travestidas de líderes religiosos, preferem enfrentar até dezessete anos de prisão a admitir a manipulação que sofreram.

O buraco em que a sociedade brasileira — e, por extensão, a humanidade — está metida não se explica apenas pela política. Talvez pela psicologia, talvez pela psicopedagogia. Mas, no olhar leigo deste cronista, tudo se resume à esperteza de lideranças que usam a religiosidade como instrumento de poder. Não como fé, mas como religião de conveniência, para impedir que o povo leia, reflita, questione.

Os profetas falavam de um Messias que viria restaurar princípios de salvação. O que vemos, porém, são falsos messias que assentam dogmas de submissão. E é nesse desvio que se perpetua a tragédia brasileira: a arte resiste, mas a manipulação insiste.

Ontem, "27/12/25", o meu grande amigo (o cantor, compositor e instrumentista Betto Ponciano), permitiu aos ouvintes da Rádio Comunitária Cantareira, também, no dia de ontem, pelas redes sociais, depois da cantoria aos nossos ouvintes, uma audição especial, em homenagem à uma especialíssima aniversariante, minha eterna namorada, a mulher, que me suporta a mais de quarenta anos, que nos permitiu dois filhos, igualmente fantástica e, minha filhota preta, um neto. O reconhecimento e gratidão, pela audiência, fica muito maior, pelas horas de conversa.

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