
Tomara, queira Deus, que eu tenha conseguido captar — como diria Rolando Lero — a mensagem de um Deus humano, próximo, feito de gente.
Olho as nuvens carregadas de chuva, forças de Santa Bárbara, mas minha pele é parda, e minhas orações, talvez, devessem se dirigir a Iansã. Afinal, “quiçá”, palavra de origem afro, ecoa como “oxalá”, que chegou até nós com os mascates libaneses e significa, simplesmente, “queira Deus”.
Confesso: há mais de meio século li Horizonte Perdido, de James Hilton. Na ficção, um piloto é contratado para levar um supercomputador a um mosteiro no Himalaia. O avião não consegue chegar ao topo. O enredo não é o essencial, mas sim a ideia: os monges queriam catalogar todos os nomes atribuídos a Deus. Quando a missão fosse concluída, o mundo acabaria. O “americanismo” do piloto sabotou o plano, e o mundo seguiu.
Na mesma época, devorei simultaneamente a Bíblia e os três volumes de O Capital. Desde então, carrego uma pergunta: de que adianta ler sem compreender? De que adianta bater no peito orgulhoso por absorver conteúdos que, na prática, contradizemos em nossos atos?
A Bíblia sugere um Deus único, que nos faria irmãos. No entanto, alguns desses irmãos preferem enriquecer às custas dos outros, e chegam a propor metralhar desafetos. A igualdade, que deveria ser universal, é seletiva: só vale para os iguais entre si.
Para que essa igualdade não seja apenas teórica, é preciso organização política. A Bíblia já traz uma forma de organização, mas anterior às tecnologias e às necessidades contemporâneas. Depois vieram Adam Smith, e mais tarde Marx e Engels, detalhando como o mundo poderia se organizar para que a igualdade fosse possível.
Mas essa igualdade exige eliminar privilégios doentios de poucos, sustentados por ignorâncias fabricadas e incentivadas por sacerdotes. Não pelo Deus da Bíblia, mas por uma lógica que, como Hilton descreveu, é negada pelo americanismo. A igualdade não é apenas criminalizada: é demonizada. E essa demonização garante que os privilégios de uns poucos continuem intocados.
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