terça-feira, 23 de dezembro de 2025

TOMO MMLXIX - PARA MUITO ALÉM DAS IDIOTICES


O PARTIDO POLÍTICO DE FABRICAR IDIOTAS

A Mídia e a Fabricação do Pensar

Minha infância foi marcada pelo trabalho infantil. Em uma família numerosa, a abundância de mão de obra era quase natural, especialmente no meio rural, onde meus pais se formaram. Lembro-me de que, ainda com três anos de idade, antes mesmo de frequentar a escola, já ajudava meu pai. Ele se orgulhava em mostrar o pequeno que fazia contas em cantos de jornais velhos, transformados em cadernetas improvisadas. Essa habilidade, que hoje reconheço como cálculo mental, era um recurso valioso em tempos sem computadores — embora, claro, já não tenha o mesmo brilho na era digital.

Retomo esse fio da memória para falar de um tema recorrente em minhas crônicas: o papel da mídia na fabricação do pensamento coletivo. Volto aos anos cinquenta, propositalmente, para lembrar da campanha do “cara da vassoura”. Na eleição presidencial de 1960, sem internet e com uma televisão ainda tímida, restrita a shows musicais e enlatados, os grandes motores da política eram o rádio, os jornais, os comícios e, sobretudo, o boca a boca. Foi nesse cenário que símbolos simples, como a vassoura, se tornaram produtos de marketing político, vendidos como moralidade.

A mídia, desde então, comercializa uma moralidade “pseudo”, sempre inclinada à direita. O populismo era rotulado como “feroz comunismo”, e essa narrativa era empurrada ao povo como verdade incontestável. Não por acaso, as igrejas também desempenhavam papel fundamental nesse processo, reforçando os interesses das elites e moldando a formação intelectual das pessoas de acordo com o que a mídia queria que elas pensassem.

Durante os primeiros anos da ditadura militar, até o assassinato de Vladimir Herzog, a imprensa tradicional apoiava cegamente o regime. Conheci muitos profissionais da área que reclamavam não apenas da censura oficial, mas também da autocensura imposta pelas próprias redações. Muitas vezes, textos eram cortados não por ordem dos censores, mas por decisão dos editores, que se tornavam mais radicais que os próprios militares.

O exemplo do “cara da vassoura” é emblemático: cassado pelo golpe, retornou após a anistia para se tornar líder de um partido envolvido no escândalo do mensalão. A moralidade vendida pela mídia sempre serviu para deslegitimar pensamentos progressistas, justamente porque estes contrariam os interesses das elites. Claro, existem jornalistas que optam por informar de fato, mas esses se concentram em canais alternativos, geralmente de esquerda. Já os que se alinham ao papel de fabricantes de idiotices não conseguem enxergar sequer o arco-íris de cores em um comercial de sandálias — para eles, tudo é vermelho, tudo é ameaça.

A mídia, ontem e hoje, continua sendo a grande fábrica de consensos. E enquanto o povo consumir suas “vassouradas” como moralidade, continuará a ser conduzido por narrativas que servem mais ao poder do que à verdade.

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