Caminhando pelo balneário da Praia Grande, vi um carro estacionado com um adesivo que dizia “luladrão”. O resto, claro, é licença poética. Mas esse detalhe me fez refletir sobre como símbolos e frases soltas se transformam em narrativas políticas inteiras.
Ramagem, por exemplo. Para alguns, virou herói porque não se curvou ao que chamam de tirania do STF. A Polícia Federal investigou, o Ministério Público denunciou, mas nada disso importa para quem já decidiu que o vilão é o ministro Alexandre de Moraes. A lógica é simples: se há um inimigo, qualquer fuga pode ser pintada como ato de coragem.
Eu, morador da periferia de São Paulo, observo com curiosidade mínima — mas não menos crítica — as mudanças de comportamento ao meu redor. Nos cultos evangélicos da Vila Brasilândia, onde vivo, os fiéis deixaram de lado o tradicional “terno e gravata” e passaram a vestir a camiseta amarela da seleção. Não consigo evitar a pergunta: por que essa transformação? O que significa trocar símbolos religiosos por símbolos nacionais em um espaço de fé?
A chamada “mérdia colaborativa”, que nunca foi de esquerda, poderia lembrar da fila do osso ou do preço da gasolina, hoje quase dois reais mais barato do que há três anos. Mas não adianta: o bolsonarista típico não tem capacidade cognitiva para abstrair, para relacionar fatos, para enxergar além da narrativa que lhe foi entregue.
E quando penso na tentativa de roubo das joias, documentada e exibida até pela TV Record — emissora do bispo que também é dono do partido do governador do estado mais rico do país — percebo como tudo se conecta. Denúncias apontam ainda para vínculos com o banco Master. Mas, curiosamente, o herói não é quem denuncia ou quem investiga. O herói, para essa narrativa, é quem tentou dar um golpe de Estado e depois fugiu covardemente.
Tenho minhas divergências históricas com Lula, desde os tempos em que era líder sindical no ABC. O apelido “Lula” só se incorporou ao nome depois de sua prisão na ditadura. Mas reconhecer essas divergências não significa negar a história. O problema é que muitos não têm nem capacidade cognitiva, nem saber histórico, e por isso a discussão se torna infrutífera.
O que é certo, infelizmente, é que depois do golpe de 2016 e da eleição do inominável, o Brasil real ficou em ruínas. Não o Brasil dos bolsonaristas, que se sustentam apenas na fé cega em um mito, mas o Brasil concreto, o das pessoas comuns, dos trabalhadores. Esse país precisa ser reconstruído. E não será pelas elites que sempre o destruíram. Será pelos trabalhadores organizados, que precisam colocar a mão na massa e retomar o destino da nação..

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