Vivemos tempos em que a realidade é moldada por narrativas cuidadosamente construídas — e vendidas. Para os que habitam os porões sociais, onde a sobrevivência é diária e a dignidade escassa, essas narrativas assumem contornos quase religiosos.
Já para aqueles que, mesmo saindo do mesmo porão, conseguiram uma pequena ascensão — como o vendedor de salgadinhos na porta da escola — a ilusão de pertencimento ao sistema é tão poderosa quanto a de um empresário de rede. A hipnose coletiva não distingue classe, apenas reforça a hierarquia.
O Medo como Fundamento
O medo é uma das emoções mais primitivas da humanidade. Surgiu quando nossos ancestrais famintos desciam das árvores em busca de restos deixados por predadores. A luz do dia era, ao mesmo tempo, bênção e ameaça: permitia ver os perigos, mas também tornava os famintos visíveis.
Com o tempo, o medo se transformou em precaução, e a precaução em estratégia. A observação tornou-se ciência — inclusive a ciência da manipulação. O medo, domesticado e direcionado, passou a ser uma ferramenta poderosa nas mãos de quem deseja controlar.
Da Religião à Engenharia da Crença
Na era contemporânea, após as revoluções sociais e o declínio das teocracias como instrumentos diretos de dominação, a religião passou a ocupar um lugar de respeito antropológico. Mas esse respeito não impediu que templos se tornassem fontes de renda para uma casta de parasitas. E para que esses parasitas prosperassem, era necessário um sistema econômico que não apenas os tolerasse, mas dependesse deles.
Esses novos sacerdotes da narrativa assumiram o papel de hipnotizadores de massas. Seu objetivo não é a fé, mas a obediência. Eles vendem discursos prontos, moldam o medo coletivo e garantem que os verdadeiros beneficiários do sistema — os que vivem de privilégios — permaneçam invisíveis.
A Ilusão da Participação
A manipulação é tão eficaz que o pequeno comerciante acredita ser parte do topo. Compra a narrativa de que é um “empreendedor de sucesso”, mesmo quando mal consegue pagar as contas. Essa crença não se sustentaria sem o apoio dos hipnotizadores religiosos, que reforçam a ideia de que tudo é parte de um plano divino — e que questionar o sistema é pecado.
Assim, o medo deixa de ser individual e se torna um medo alheio, coletivo, comprado em pacotes ideológicos prontos. A narrativa dominante transforma o explorado em defensor do explorador. E o obscurantismo se instala, não pela força, mas pela crença.
Conclusão
A hipnose social não é um acidente. É projeto. E como todo projeto, tem arquitetos, engenheiros e operários. Para romper esse ciclo, é preciso mais do que informação: é preciso consciência crítica. É preciso questionar as narrativas, desconstruir os discursos prontos e, sobretudo, recusar o papel de figurante em um teatro onde poucos escrevem o roteiro e muitos apenas repetem falas.
A libertação começa quando deixamos de temer a luz — e passamos a enxergar quem realmente está por trás da cortina.

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