A lição de moral mais antiga que uma criança aprende, repetida de geração em geração, é simples: “não cuspa para o alto, senão o cuspe cai na cara”.
Nos anos cinquenta, essa advertência parecia óbvia demais para ser levada a sério. Quem seria tolo o suficiente para cuspir para cima? Mas o tempo mostrou que a metáfora se aplica perfeitamente às incoerências políticas que atravessam décadas. Hoje, quando não queremos chamar alguém de idiota, basta dizer: “lá vai um bolsonarista”. Todos entendem o sentido.
Entre as muitas “cusparadas para o alto” de Jair Bolsonaro, uma das mais emblemáticas foi a defesa aberta da tortura. Ao longo da vida, ele sustentou esse discurso como se fosse uma virtude, sem perceber que a própria lógica o condenava. Afinal, se tivesse passado pelos porões da ditadura que tanto exalta, talvez pensasse diferente. Mas não: protegido pelo corporativismo das Forças Armadas, construiu carreira medíocre, chegou à prisão por insubordinação e garantiu aposentadoria superior à de milhões de brasileiros que madrugam para enfrentar ônibus lotados e a violência cotidiana das ruas. Enquanto o trabalhador comum é humilhado por policiais abusando da farda, especialmente se for negro, Bolsonaro e seu clã sempre se colocaram acima das consequências.
A ditadura que ele defende não é uma abstração. Foi um regime que torturou, perseguiu e matou quem ousava pensar diferente. Bolsonaro, porém, sempre aplaudiu esse passado, mas apenas para os outros. Para si e sua família, a lógica é inversa: qualquer consequência legal é tratada como perseguição, qualquer responsabilização é vista como tortura. Essa incoerência ficou evidente nos episódios recentes em que milhares de apoiadores atravessaram o país para promover atos golpistas, como se fosse possível reunir “cinco mil ônibus” sem registro, sem CPF, sem organização. A narrativa de espontaneidade não resiste ao menor exame, e os julgamentos mostraram com clareza que havia uma preocupação central: blindar o clã e transferir a idiotice coletiva para os seguidores.
O resultado é que Bolsonaro continua a cuspir para o alto. Defende a ditadura e a tortura como se fossem soluções, mas ignora que essas práticas sempre recaem sobre os mais vulneráveis. Para os que insistem no direito de pensar, a consequência é repressão. Para os que se colocam acima do bem e do mal, qualquer punição é tratada como injustiça. A metáfora infantil se confirma: quem cospe para cima, cedo ou tarde, acaba com o cuspe no próprio rosto.

Nenhum comentário:
Postar um comentário