Uma das primeiras lições do manual de qualquer revolucionário é que a revolução não termina na tomada do poder político. Ela é um processo contínuo, e o “start” é apenas o início de uma longa disputa pela narrativa, pela memória e pelo futuro.
No Brasil, o processo golpista não começou com tanques nas ruas, mas com discursos cuidadosamente construídos. A minha geração — e provavelmente as anteriores — foi doutrinada com a falácia da calmaria institucional. Nenhum golpe se assume como tal. Sempre vem travestido de defesa da democracia, da soberania ou da legitimidade. Em 1964, chamaram de “revolução”. Em 2016, foi “impeachment” por uma pedalada inexistente. Em 2018, a prisão do candidato favorito e a entrega do pré-sal aos interesses estrangeiros foram disfarçadas de legalidade.
A extrema direita que se instalou no país após 2018 repetiu o velho discurso da defesa da pátria, enquanto mantinha o país submisso aos interesses da potência de ocasião. E como todo golpe precisa de uma roupagem nova, inventaram o “golpe dentro das quatro linhas” — uma expressão vazia, sem respaldo constitucional, mas eficaz para mobilizar massas.
Esse suposto golpe “legalista” tentou impedir a posse de um presidente eleito, depois tentou desestabilizar o governo por meio da GLO (Garantia da Lei e da Ordem), um dispositivo constitucional que não se aplica à perda de eleições. A cada tentativa frustrada, os golpistas reinventavam sua narrativa, apoiados por seguidores cegos — os “imorrivetes” — que idolatravam um torturador e, diante das consequências legais, passaram a chamar o processo judicial de “tortura”.
A Anistia como Último Refúgio
Para escapar da responsabilização, os golpistas passaram a chamar o Estado de tirânico, acusando-o de perseguir “velhinhos com a Bíblia na mão” — uma caricatura conveniente para esconder o fato de que muitos desses “velhinhos” foram doutrinados por uma extrema direita eternamente golpista.
Diversas tentativas de anistia foram articuladas, mesmo com a Constituição proibindo anistia para crimes contra o Estado democrático de direito. Felizmente, todas essas tentativas foram infrutíferas. Mas a cada nova investida, especialmente na Câmara Federal — onde os golpistas elegeram uma maioria absurda — há um clima de celebração carnavalesca, como se a impunidade fosse um troféu.
Segurança como Pretexto
A pauta da segurança pública, cara à direita, tem sido usada como pretexto para eliminar a população excluída. O problema é tão grave que o governo enviou à Câmara uma proposta de combate à violência — a chamada “Lei Anti-Facção”. O relator? Um capitão da polícia, conhecido por sua indiferença aos direitos humanos, que se licenciou do cargo de secretário de segurança do estado mais rico do país.
Sua proposta cria a figura de “organização criminosa ultraviolenta”. Embora pareça apenas uma questão semântica, na prática, essa definição pode isentar os crimes dos golpistas, já que a acusação de associação criminosa desaparece. A proposta passou na Câmara, como era de se esperar. Agora, cabe ao governo — ironicamente — usar o Senado, onde ainda parece haver algum senso legal, para barrar sua própria proposta. Caso contrário, estaremos diante da efetivação do tão falado “golpe das quatro linhas”.
A Democracia em Xeque
O que estamos testemunhando não é apenas uma disputa política — é uma tentativa sistemática de reconfigurar os fundamentos da democracia brasileira. O golpe continuado não se dá apenas por tanques ou decretos, mas por narrativas, legislações enviesadas e manipulações institucionais. A cada nova investida, o objetivo é o mesmo: blindar os responsáveis, reescrever a história e garantir que os beneficiários do sistema permaneçam intocados.
A proposta da “Lei Anti-Facção”, ao criar a figura de “organização criminosa ultraviolenta”, pode parecer uma medida de segurança pública. Mas, na prática, ela abre brechas perigosas para a impunidade dos que atentaram contra a ordem democrática. Ao eliminar a tipificação de associação criminosa, os golpistas escapam por uma porta semântica construída sob medida.
O paradoxo é evidente: o governo, eleito democraticamente, precisa agora usar o Senado — uma casa legislativa com um pouco mais de compromisso constitucional — para barrar uma proposta que ele mesmo enviou. Isso revela o grau de infiltração e pressão que a extrema direita exerce sobre o sistema político, mesmo após perder nas urnas.
Conclusão: A Luta Pela Memória e Pela Justiça
O golpe das quatro linhas não é uma metáfora. É uma estratégia. E como toda estratégia, precisa ser enfrentada com lucidez, coragem e compromisso com a verdade. A democracia não se defende apenas com votos, mas com memória, com justiça e com a recusa ativa à normalização da mentira.
Não há neutralidade possível diante da tentativa de apagar crimes contra o Estado democrático. Não há conciliação possível com quem quer transformar a Constituição em escudo para golpistas. A história nos ensina que toda anistia mal concedida é um convite à repetição. E o Brasil já pagou caro demais por seus silêncios.
É hora de romper com a hipnose coletiva, de desmascarar os falsos profetas da ordem e de reafirmar que democracia não se negocia — se defende. Com firmeza. Com memória. E com ação.
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