a) quantos Brasil,
Há neste meu Brasil?
Há o Brasil dos invasores,
O Brasil, de que crê, em Cabral e calmaria.
Há o Brasil, dos compiracionistas,
Aqueles que vêem, conspiração em tudo,
Afinal, Américo Vespúcio e Colombo,
Nos foi ensinado na mesma escola.
O Brasil dos filhos de Zumbi
Seria uma frase de para-choque, mas é, na verdade, uma lembrança de alguém que carrega consigo as lições das aulas de história do curso primário. Ou simplesmente, eu.
Durante a pandemia, encontrei um bolsonarista típico: transpirava certezas, ainda que suas “verdades” não fossem aceitas nem mesmo nos grupos de seus pares. Jurava de joelhos, mãos erguidas ao céu e olhos marejados, que os indígenas haviam chegado nas caravelas com Cabral.
Nossa reflexão de hoje não pretende resolver dúvidas tão peculiares. Essa forma de pensar, ainda que pareça única, é apenas mais uma entre tantas idiotices que se espalharam no bolsonarismo.
Falemos, então, deste Brasil que sucumbiu ao bolsonarismo. Muitos apontam o início em 2013, com o quebra-quebra das manifestações. Outros retrocedem ao mensalão, ou ainda à resistência contra a ditadura militar. Mas a verdade do Brasil é mais antiga: começou quando um escravizado preferiu a morte aos grilhões, e outro, ao testemunhar essa escolha, arquitetou o que viria a ser um quilombo.
A ignorância, em qualquer tamanho, é espalhada como verdade absoluta. E assim surgem “verdades inexistentes”, como o Cristo na goiabada. Para quem crê, sua versão é irrefutável. Se mais de um acreditar, torna-se “verdade coletiva”.
No fundo, é a velha teoria do criacionismo impedindo o conhecimento de Darwin. A conversa, no campo da biologia, se encerra no negacionismo às vacinas. Por trás disso, o fatalismo e o determinismo alimentam muitas outras distorções.
Mas as idiotices não param aí. Elas alcançam o marxismo — ou melhor, alcançam o Cristo. Não o Cristo que interessa aos cobradores de dízimos, sustentados por crenças absurdas, mas o Cristo que expulsou os mercadores dos templos. Infelizmente, é esse Cristo que, na crença manipulada, “precisa” dos dízimos de quem mal consegue se alimentar.
Falamos de Brasil. E nesse Brasil, tornou-se natural sentir dó de alguém acometido pelo mal de Alzheimer, mesmo quando, durante quatro anos, lembrava de todos os absurdos ditos em defesa das inexistentes bonanças do governo que integrou.
O meu Brasil não é o dos pagadores de dízimo. O meu Brasil é o dos filhos de Zumbi.

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