segunda-feira, 2 de junho de 2025

YANES MARQUES - UMA CAMPEÃ BRASILEIRA



Quando subiu ao degrau mais alto do pódio, em 23 de julho de 2007, para receber a medalha de ouro dos Jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro, a sertaneja Yane Márcia Campos da Fonseca Marques, então com 23 anos, alçou o próprio nome e o pentatlo moderno brasileiro do anonimato para as manchetes dos jornais e programas de televisão.


“A imprensa e o público foram extremamente receptivos. Ficou todo mundo em cima, as provas foram transmitidas, e a minha conquista foi bastante divulgada”, lembra. “Para mim foi importantíssimo, foi um marco na minha carreira, que se divide em antes e depois de 2007. A partir do Pan do Rio, as pessoas começaram a conhecer mais o pentatlo moderno, a valorizar mais. Eu não tenho dúvida da minha contribuição para esse marco histórico”, avalia.




O Brasil já havia conquistado uma medalha de prata nos Jogos Pan-americanos de Santo Domingo, em 2003, com a Samantha Celeste Harvey, uma brasileira nascida em Nova Iorque. Samantha também foi a primeira mulher a representar o nosso país no pentatlo moderno em Jogos Olímpicos, ficando na 25ª colocação em Atenas 2004.




O Pan Rio 2007 foi a primeira barreira, o pontapé no caminho que levou aos Jogos Olímpicos Londres 2012, quando Yane novamente transformou a história do pentatlo moderno brasileiro com a medalha de bronze.


Que esporte é esse?

De acordo com o filósofo grego Aristóteles, que viveu entre os anos 384 e 322 antes de Cristo, o pentatleta é o atleta mais completo porque em seu corpo, sua força e sua velocidade se unem em perfeita harmonia. Embora já tivesse ouvido falar de Aristóteles, até 2003 Yane Marques não sabia nada sobre o pentatlo moderno.




Modalidade disputada nos Jogos Olímpicos da Antiguidade, desde a primeira edição e considerada a mais nobre, o pentatlo passou a integrar o programa dos Jogos Olímpicos da Era Moderna em Estolcomo 1912, reunindo competições de esgrima (espada), natação (200m livre), hipismo (saltos) e um evento combinado de tiro (pistola tiro rápido) e corrida, agora com o nome de pentatlo moderno. A estreia entre as mulheres aconteceu nos Jogos Olímpicos Sydney 2000.




Promessa da natação

Campeã e recordista brasileira nos revezamentos 4x50m e 4x100m medley, as pretensões esportivas da atleta pernambucana tinham como foco as provas de natação. “Eu não escolhi o pentatlo, escolheram para mim”, brinca ela.




Em 2003, quando a Federação Pernambucana de Pentatlo foi fundada, Yane foi convidada para competir o biatlo numa seleção de futuros pentatletas. “Eles convidaram os atletas da natação por entenderem que era mais fácil pegar um cara que já nadava e ensinar outras quatro coisas do que pegar, por exemplo, uma pessoa que corria e ensinar a nadar”, explica.




A então recordista de natação venceu a prova e, depois de relutar bastante, aceitou o desafio de começar a treinar outras quatro novas modalidades.




“Eu descobri que o pentatlo era uma modalidade pan-americana e, consequentemente, isso já era uma coisa interessante. Soube também que era uma modalidade olímpica e isso foi ainda mais encantador. A treinabilidade do pentatlo é muito gostosa, me apaixonei logo de cara. Quando tive a oportunidade de treinar e vi que levava jeito, descobri que eu seria uma atleta que migraria da natação para o pentatlo moderno”, conta.




Do sertão para o mundo

Caçula de uma família com poucas posses e cinco filhos, Yane Marques nasceu em 7 de janeiro de 1984, em Afogados da Ingazeira, pequena cidade do sertão de Pernambuco com menos de 50 mil habitantes. “Tive uma infância maravilhosa, com a tranquilidade de ter amigos na rua. É uma cidade que até hoje visito, tenho família lá, meu pai mora lá, tenho uma avó lá, primos, amigos e um irmão que está morando lá agora. É uma cidade muito gostosa, acolhedora e que vale a pena conhecer”, elogia.




Sempre muito ativa, a menina gostava de brincar na rua. “Eu não praticava nenhum esporte organizado, brincava de correr, de subir em árvore, de pega-pega, de tudo”, lembra.




O pai era gerente da CELPE (Companhia Energética de Pernambuco) e a mãe funcionária da prefeitura local. Em 1995, a família se mudou para Recife. A mãe passou a trabalhar fazendo doces, salgados e tortas para buffets e, pouco tempo depois, o pai saiu da CELPE. Yane começou a jogar vôlei. Mas a paixão pelas quadras durou pouco.




Acompanhando o irmão, que era jogador de futebol do Clube Náutico, a menina conheceu a piscina e se encantou pela natação. Na família, ninguém ficava parado. O pai sempre foi apaixonado por futebol, chegando a se tornar locutor de esportes, as irmãs jogavam handebol e todos faziam sucesso nas competições escolares, mas ninguém seguiu carreira no esporte. Com Yane foi diferente.


Atleta recordista

Treinando na escolinha de natação do Náutico, ela não demorou muito até passar a integrar a pré-equipe do clube pernambucano. “Dois anos depois que comecei a nadar, fui convidada para competir na equipe principal do melhor clube de natação do Recife, que era o Nikita Natação, onde eu fiz longos oito anos de piscina até migrar para o pentatlo”, contabiliza.


O esporte se tornou assunto sério na vida da menina franzina de Afogados da Ingazeira. “Eu fui evoluindo naturalmente e, quando dei conta, já estava competindo. A competição é inerente ao esporte. Eu fazia o maior esforço para viajar, competir e representar a minha cidade”, destaca.




Como atleta do Nikita, a jovem nadadora, especialista em nado peito, sagrou-se bicampeã brasileira de revezamento 4x50m e 4x100m medley, conquistou recordes e vários títulos de campeã pernambucana e campeã norte-nordeste.




Pernambucanas olímpicas

Da metade para o final da sua carreira nas piscinas, Yane teve como companheira de treino a atleta olímpica e multimedalhista em Jogos Pan-americanos Joanna Maranhão. “Joanna já nadava muito forte, com bons resultados”, informa.




“Eu conheci a galega quando fui para o Infantil 1. Ela era uma das melhores nadadoras de peito de Pernambuco, eram Mirella Galvão e ela. Eu subi para a categoria infantil e queria treinar junto delas e ganhar delas”, recorda Joanna. “Yane virou minha companheira de treino desde o início. Ela treinava de madrugada, era uma das poucas que sempre iam treinar de madrugada, e foi assim que a gente se conheceu. O que me chamava a atenção era que ela vinha de uma situação bem humilde, ela morava num bairro humilde, mas estava sempre lá, sempre fazendo sacrifícios, ela e a mãe dela, pela família”, revela a nadadora.




De nadadora a pentatleta

Quando começou a treinar pentatlo moderno, aos 19 anos, Yane Marques sabia muito pouco sobre a modalidade. “A dificuldade foi treinar um esporte que a gente não conhecia, que o Brasil não conhecia nem tinha um método de treinamento. A gente não tinha sequer uma sala de esgrima em Recife para treinar. Realmente foi bem complicado esse início”, lembra. A dificuldade financeira também pesou. “Talvez isso seja uma regra. Dificuldade financeira para se manter, para ter bons equipamentos, mas, no final das contas, tudo deu certo”, completa.




A falta de um “método brasileiro” de treinamento fez com que a atleta começasse a viajar muito para o exterior. “A gente começou a ir atrás de outros países para saber como as pessoas treinavam e o que a gente podia trazer, guardando as proporções, do que se fazia lá”, explica. Estados Unidos, França e Itália faziam parte desse circuito de treinamento.




Amor à primeira vista

Apesar dos obstáculos iniciais, a atleta classifica a fase de adaptação como prazerosa. “Eu me identifiquei com essa história de praticar modalidades diferentes, fazer vários esportes por dia mais musculação, fisioterapia, psicologia, tudo”, afirma. “Eu me encantei, me apaixonei! Foi uma dedicação muito grande, mas eu tive bons resultados bem rápido. Com quatro anos de treino, eu fui campeã pan-americana, me classifiquei para a minha primeira edição de Jogos Olímpicos e aí fui me embora”.




Com habilidades inquestionáveis na natação, Yane enfrentou o desafio de alcançar alta performance também na corrida, no tiro, na esgrima e no hipismo, modalidades até então desconhecidas para ela.




Embora possa parecer a atividade mais natural, uma vez que não requer equipamentos nem local de treinamento específico, a corrida foi o maior obstáculo da pentatleta na adaptação à nova modalidade.




“Na infância, eu costumava correr, óbvio, mas uma corrida orientada, com treinamento, não. Eu não gostava de correr, não sabia correr, e a corrida foi o meu calo durante a minha carreira inteira. Acho que, partindo do princípio de que quem anda corre, de que corrida é muito fácil, todo mundo corre muito bem, mas eu tive dificuldade de acompanhar o nível das minhas adversárias internacionais. Foi uma adaptação muito dura, muito difícil. Tive que começar correndo forte e precisava ter uma corrida interessante para poder ter um bom resultado. No final da minha carreira, eu já estava conseguindo defender a minha posição”.

Aposentadoria para parar de correr

Mesmo depois de conquistar importantes títulos internacionais, a pentatleta continuou tendo problemas para correr. “A minha história com a corrida foi difícil, do começo ao fim. Confesso que esse foi um dos fatores que me fez pensar na aposentadoria”, reconhece. “Sempre disse que ia me aposentar na hora que eu quisesse, não na hora que o meu corpo mandasse e isso aconteceu. Eu planejei me aposentar em 2016, porque já estava no meu limite na corrida. Nas outras provas, talvez, eu conseguisse tocar por mais um ciclo, mas a corrida eu não aguentaria”.




Yane Marques afirma que esgrima, tiro e hipismo foram modalidades muito gostosas de treinar. Mas, além da corrida, qual delas é a mais difícil? “Acho que, guardando as dificuldades e facilidades de cada prova, todas são bem equilibradas, eu não saberia dizer qual foi realmente a mais difícil de todas, porque as três são bem equilibradas no sentido de dificuldade”, responde. “A esgrima virou uma paixão. É uma modalidade muito difícil, muito estratégica. Eu tenho um minuto para resolver a minha vida”. Hoje, Yane é professora de esgrima.




A adaptação ao tiro foi rápida. “Fiz minha carreira atirando bem, fiz bons resultados”, orgulha-se. “O fundamento do tiro é muito fácil, mas a aplicabilidade dele é difícil porque, na hora da prova, você já está cansada, com o braço cansado para atirar”.




Apaixonada pelo hipismo

Das cinco modalidades, a natação era o ponto forte da atleta pernambucana. “É o meu esporte de origem, e eu sempre fazia uma pontuação muito boa. Eu venho da natação, mas se você perguntar qual é a minha modalidade preferida no pentatlo eu digo que é o hipismo”, enfatiza.




No pentatlo moderno, as provas de hipismo são disputadas com cavalos desconhecidos dos atletas, indicados pela organização. “O hipismo se torna muito difícil porque a gente não conhece o cavalo e conta um pouco com esse fator sorte. Não dá para saber o que está por vir”, argumenta.

“O hipismo passou a ser a minha paixão, o meu ponto forte porque me adaptei rápido. Treinava até nas minhas férias. Eu amava assistir a vídeos de cavalo, eu vivia montada”, compartilha.




Rotina puxada

O técnico Alexandre França fazia um equilíbrio de cargas, uma periodização de treinamento, organizando as fases da temporada para que Yane participasse das competições, dos circuitos e dos treinamentos centralizados.




“Eu treinava, normalmente, três provas por dia. Fora isso, ainda tinha musculação, fisioterapia e os exercícios da psicóloga. Tinha exercícios que a gente fazia no quarto, antes de dormir. Mas acontecia dias de treinar cinco provas e dias de treinar duas provas apenas”, detalha.




O treinamento de cada modalidade era dividido por semana, numa carga equilibrada, de acordo com o que o técnico desenhava. “Uma coisa era certa: equitação era sempre duas vezes por semana, natação três vezes por semana, corrida todos os dias, tiro todos os dias”, enumera.




Ela enfatiza que o pentatleta tem que ser oportunista, rápido, forte, estrategista. “Tem que aproveitar rapidamente cada oportunidade. São muitas valências físicas que o atleta do pentatlo precisa desenvolver e ter para ser um campeão. Dentro dessas cinco modalidades tão distintas, o atleta tem que ser um pouquinho de tudo para se dar bem”, ensina.




“Yane é uma atleta muito persistente. A natação foi superimportante até para esse encontro dela com o pentatlo. Ela era uma nadadora bem ‘caxias’, tipo eu. A gente era bem ‘caxias’ de treino, de fazer tudo, de não enrolar, de fazer tudo do começo ao fim”, testemunha Joanna Maranhão.

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