segunda-feira, 23 de junho de 2025

TOMO MD300LXXXV - ENTRE MINHAS MÚLTIPLAS “MESMA” SÃO PAULO:


ÀS DA RESISTÊNCIA À DITADURA

Poderíamos aqui desfilar imagens descritivas de muitas São Paulos — de pontos históricos dos quais não guardo registros fotográficos, pois pertencem a um tempo em que, para fotografar, era necessário mais do que uma câmera: era preciso completar o filme, revelar, e queimar um papel sensibilizado por nitrato de prata que também seria revelado, para então mostrar as imagens. Outros tempos.

Entre minhas memórias, os bondes do Largo da Concórdia, onde meu pai comprava mercadorias para sua “branquinha de feira”, um armarinho onde se vendia elástico, linhas, botões, viés — além de temperos e fumo de corda. Os amigos do seu Enéas “tiravam um trago”, “davam uma pintadinha” e faziam um cigarro, seja na palha ou no papel de seda.

Além do bairro do Brás, os bondes da Liberdade — alguns que iam até a Praça Margarida Maria, na Rua Lins de Vasconcelos. Mas a lembrança não vem bem dali. Ela vem de um hospital de olhos na Rua Tamandaré. Lá, eu acompanhava um senhor que havia perdido a visão.

O Vale do Anhangabaú, a Praça da Sé, o coreto da Praça da República — nesse palco improvisado, encenamos um monólogo de Morte e Vida Severina, antes mesmo da gravação do Chico Buarque. Aqui começam as lembranças de uma São Paulo resistente à ditadura. Além da Rua Galvão Bueno, na Liberdade — hoje sede da Força Sindical — havia também a Rua do Carmo, onde ficava o sindicato dos metalúrgicos de São Paulo.

Ruas próximas testemunharam batalhas históricas: sedes dos sindicatos de marceneiros, vidraceiros e a Rua do Gasômetro, onde ficava o sindicato dos trabalhadores nas indústrias de papel e papelão. Os confrontos entre trabalhadores e a polícia na Rua Quinze de Novembro.

Falando em batalhas de rua: as da Rua Maria Antônia, entre os “conservadores da elite” que cursavam o Mackenzie e os alunos de Sociologia da USP.

Além dessas batalhas, houve os incêndios nas lojas Pirani, no edifício Andraus e no edifício Joelma. Ou as históricas lojas Mappin e Mesbla. As visitas ao Mercadão do Brás, na Rua da Cantareira, ou aos temperos da Rua Santa Rosa. Nas periferias, os ônibus demoravam uma hora ou mais para passar. As linhas que saíam da Brasilândia com destino à Água Branca, à Pompéia, passando pela Avenida Santa Marina. Quando havia problemas nas linhas de trem — e eram muitos — especialmente na FEPASA, que ia de São Paulo a São Roque (não só até Itapevi, como hoje). A linha Santos–Jundiaí chegava até Paranapiacaba, não apenas até Rio Grande da Serra, como é hoje.

O golpe de 1964, além de abrir as portas do Brasil ao capital externo, abriu também as vias para o transporte sobre rodas, aumentando — e muito — nossa dependência do petróleo, que na época era majoritariamente importado. Foi um presente amargo: além das históricas dependências de alguma metrópole qualquer, o país permaneceu uma eterna colônia, e a dívida externa explodiu. Para ela, a ditadura — por meio de um mago da publicidade — criou a campanha “OURO PARA O BEM DO BRASIL”. O problema é que esse ouro ou não foi arrecadado, ou só enriqueceu os já beneficiados pela ditadura.

Ah, as tais dívidas externas... Só foram equacionadas quando um operário, “mesmo sem as ideologias de um proletário” — ironicamente, pois o golpe foi justamente motivado pelo medo dos trabalhadores — desfez o maior “presente de grego” desde a invasão do Brasil: a dívida externa. Mas foi aí que as elites, sempre entreguistas — e/ou “chupins” — ampliaram as dívidas internas, impedindo, com isso, a construção de um Brasil mais justo.

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