domingo, 13 de julho de 2025

TOMO MCMV - HISTÓRICA PROVA DE HISTÓRIA

Faríamos, certamente, um salto no tempo, até o já longínquo março de 1995, quando o professor Edgar pediu que contássemos nossas imaginações. Éramos mais de cento e vinte pretensos cientistas sociais e destes, menos de vinte concluíram o curso. Pois bem, aquilo que trinta anos depois definiríamos como aula introdutória de arqueologia, já que uma peça de roupa velha teria sido encontrada nos escombros de uma delegacia.

Para que houvesse tempo para todos falarem, foram organizados grupos aleatórios. Saímos deste nada hipotético de março de 1995, para o muito real, março de 1960, neste tempo, estudar história, era basicamente decorar datas, nomes de personagens das classes dominantes, ainda subsequentes a um hipotético "21/04/1500" que já no ginasial, virou "22/04/1500".


O único personagem, não pertencente às elites deste tempo, era o herói morto, história contada e recontada, para criar um sentimento pátrio, numa época em que cantar o hino nacional, em fila dupla, no pátio da escola, entrava num quisto, "nota", que ia no boletim, que valeria, ou não" algumas sovas, "surras" em casa. Para mim, duas situações diferentes, a primeira, repetir as experiências narradas por minhas irmãs, a outra, uma rebeldia inconteste, a algo, que me parecia podre, a abolição, não a fracassada abolição da independência, que causara a morte do tal herói, (homem simples "José Joaquim da Silva Xavier" o Tiradentes), o queriam abolir mesmo, era a capacidade de pensar, de se rebelar, daqueles duzentos garotos e garotas, que iniciaram o primeiro do curso primário naquele ano.


Minha prova de história, não vem da memorial cena, onde no meio de uma "zoada" infernal, um adulto, pega um megafone e grita, em ordem alfabética, os tais duzentos nomes, como havia um certo Aaran, fui o segundo, mas não cai na primeira das quatro filas, e sim na quarta, uma fila que não tinha espaço nas dependências da "ESCOLA ESTADUAL PROFESSOR GALDINO LOPES CHAGAS", a verdadeira prova de história é procurar num hoje, já no séc XXI, quantos daquela turma está viva, quantos, mesmo já falecidos, escreveram uma história diferente, de algo que poderia ser classificado como destino. Destino, aqui, seria ser novos Tiradentes, ou seja, morrer em nome de uma causa, totalmente alheia a seus interesses.


A questão não é de uma história, ao menos, daquelas que comporiam os currículos escolares das histórias narradas no contexto do curso primário, onde, fora Tiradentes, nenhum pobre, jamais foi citado, quando foi, por sua lealdade aos nobres senhores de escravos, nem as mulheres, tinham destaque nestas narrativas, ou no papel de vilão.


Foi como vilão, que conhecemos os indígenas, foi igualmente como vilão, que conhecemos Zumbi dos Palmares.


Nossa conversa sobre esta hipotética prova de história, seria encontrar vivo alguns daqueles duzentos garotos e garotas, se por um lado informo que estou vivo, lamento informar, que sou um dos quatro únicos, sou ainda um de outros quatro únicos, os que chegaram a concluir um curso superior, o único que o fez, depois dos quarenta.


Dói saber das violências que ceifaram muitas destas cento e noventa e seis vidas, das que acompanhei, muitas de acidentes de trabalho na construção civil, parte do inevitável destino para quem aprendeu que um ex-escravizado que vira capitão-do-mato, vira herói e ganha inclusive o nome de escola infantil, já que lutou pelo fim da escravatura, só resgatado pela história anos depois.


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