O Império da Hipocrisia
Minha primeira lembrança de discordância consciente veio cedo, em 1957, quando eu tinha apenas quatro anos. As celebrações católicas me pareciam cheias de lágrimas e devoção, mas escondiam uma prática de exclusão. A missa falava em igualdade, mas a sociedade que se erguia em seu nome era estamentada, hierárquica, desigual.
Em 1964, o golpe militar radicalizou essa hipocrisia. Pensar era proibido. Ou melhor: pensar até se podia, desde que fosse para dizer “amém”. Foi nesse período que conheci a célebre frase de Karl Marx: “A religião é o ópio do povo.” Não havia como não concordar. As missas católicas, já carregadas de contradições, encontravam eco nas práticas dos crentes, que reforçavam a exclusão.
Ao folhear os livros de história, sempre com Marx como lente, compreendi que a farsa religiosa vinha de longe: desde a conversão do Império Romano ao cristianismo. Não foi o império que se converteu ao cristianismo, mas o cristianismo que se converteu ao império. E assim nasceu um mundo cristão que domina economicamente até hoje — inclusive sobre os não cristãos. Quem não era “filho de Deus” recebia uma bíblia e perdia tudo: terras, cultura, identidade.
No presente, vivemos sob democracias formais, mas muitas delas assumem a aparência de estados religiosos. A leitura da Bíblia, moldada pelo império romano, impera como ditadura cultural. Minorias numéricas são ignoradas, e até as maiorias — como as mulheres, que superam os homens em número no mundo inteiro — são excluídas do poder político, econômico e cultural.
No chamado “mundo ocidental”, onde está essa democracia de fato? O que vemos é uma versão nada cinematográfica do conto da Aia, de Margaret Atwood. Na obra, os EUA sofrem um golpe e passam a ser governados por radicais religiosos. As mulheres são reduzidas a reprodutoras, escravizadas sexualmente. A ficção virou alerta, e o alerta virou realidade.
No Brasil, já convivemos com a sombra de um “evangelistão” que produz um imenso “ceganistão”. O financiamento de líderes medíocres pode estar patrocinando não apenas novas tentativas de golpe de Estado, mas também um projeto de recolonização — desta vez, em nome da fé.
CEGUEIRA DO PRIMEIRO BEIJO
Em breve, poucos dias,
Quarenta e seis anos,
Sei, nem eu creio nisto,
Afinal, morávamos na mesma vila,
Ela morava na rua da capela,
Que ajudei a construir,
Mais, há quarenta e seis anos,
Eu a vi.
O primeiro beijo demorou uns meses,
Afinal, como Marx, no manifesto,
Primeiro vem o país.
O primeiro beijo demorou uns meses,
Afinal, como Marx, no manifesto,
No Brasil, tínhamos uma ditadura.
O primeiro beijo demorou uns meses,
Afinal, como Marx, no manifesto,
Tínhamos, um partido para construir.
Meses depois, aquele olhar,
Um beijo, um primeiro beijo,
Que se repete a quase
Quarenta e seis anos,
À minha namoradinha de quarenta e seis anos.
Otavinho da Proprietária

Nenhum comentário:
Postar um comentário