Houve um tempo em que os dias pareciam intermináveis — e a diversão era simples: observar a chuva pela janela enquanto se saboreava o divino gosto de um “bolinho de chuva”. Depois, o mergulho nas poças d’água era inevitável, uma celebração da infância que terminava em lama e risadas, sob o olhar resignado de quem lavaria as roupas.
Havia também as bolas, os jogos sob a lua minguante, quando a pouca luz não permitia ver o “toco no chão” que quebrava dedões. Havia o pique, o pega-pega, o passa-anel — e, por sorte, o prêmio podia ser um beijo tímido.
Mas o tempo passou, e as guloseimas da infância foram distorcidas pelas regras bélicas do capetalismo — esse sistema que transformou o fundo do vale em avenida, o terreno baldio em ponto comercial, e o brincar em mercadoria. A bola de borracha virou produto, o quintal virou estacionamento, e até os restos de comida se tornaram ração para “pets”. Tudo, absolutamente tudo, foi comercializado.
Os jogos infantis ganharam o nome elegante de games, e com isso, foram capturados pela lógica do lucro e da ideologia. Tornaram-se não apenas entretenimento, mas também campo de treinamento — militar e político.
No mundo dos games, há um apodrecimento das ideologias proletárias. A morte, antes vista com horror, tornou-se pixel, estatística, pontuação. A vida humana foi relativizada, transformada em inimigo de uma tela. Ainda que existam exceções, o que o capetalismo fez ao ocupar o espaço das brincadeiras é também uma ferramenta de idiotilização política — um processo de moldar consciências, de formar juventudes militantes da direita. Claro, a juventude de esquerda também joga, mas o jogo é outro.
A diferença está na relação com o sagrado. Enquanto a esquerda reconhece a necessidade humana da religião, a direita a transforma em arma. A morte da inocência cria o mercado perfeito — não apenas para o dízimo, mas para o domínio. A manipulação faz com que a sociedade aceite como normal a milícia, chore a morte de uma criança, revolte-se com o salto fatal de uma jovem num “ban-jamp”, mas ignore a mercantilização da própria vida.
Porque enxergar o todo seria perigoso.
Ver o mundo como ele é — um imenso mercado — exigiria questionar o próprio sistema que o sustenta.
JOGATINAS
Sou do tempo,
Sou de um tempo,
Em que o tempo não passava,
As vinte e quatro horas do dia,
Durava meses, ou meses duravam anos,
Os anos, duravam décadas,
Já as décadas, eram inimagináveis.
Deste tempo, há fraturas no braço,
Deste tempo, cicatrizes no pé,
"Furos por pregos enferrujado",
Ah, antes que esqueçamos,
Houve uma profunda mudança nas jogatinas.
Donde dantes havia,
Bola de borracha, nas ruas,
Ou em campos em fundos de vale,
Há, aluguel de quadros,
Donde dantes, terrenos baldios,
Pseudos-escolas, que além de nada ensinar,
Faz os pais creem, na genialidade dos rebeldes,
Onde a "rebeldia" sem causa,
Causam adultos indomáveis.
Anesino Sandice

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