sábado, 13 de junho de 2026

TOMO MMCCXL STIGMA DE UM CABALÍSTICO NÚMERO TREZE

 

O Estigma do Treze

Religião, confesso, raramente me inspira a escrever. Mas há cabalidades curiosas nas escrituras, inclusive na doutrina cristã, que os conservadores rejeitam por associarem ao “pagão”. Ora, pagão seria apenas quem não nasceu dentro da religião. Cristo, na parábola do bom samaritano, já havia ensinado que não é a filiação religiosa que define alguém, mas suas atitudes.

Versículos e capítulos são apenas marcadores de texto. O que deveria nos guiar é a compreensão cada vez mais profunda das escrituras. Cristo é personagem exclusivo do Novo Testamento. O Velho Testamento deve ser lido, sim, mas sobretudo para sabermos o que precisamos superar. Os profetas anunciavam um Messias que restauraria princípios de justiça e solidariedade. Mas o início da Bíblia traz uma lenda — Adão e Eva — que a própria narrativa contradiz ao mencionar cidades já existentes, como Node, para onde Caim foi buscar esposa. Se não houvesse outras populações, seria impossível a Bíblia condenar o incesto.

Nos tempos primitivos, a sociedade bíblica era sem Estado e sem exército. O dízimo surgiu para sustentar órfãos e viúvas. No Novo Testamento, essa função passa ao Estado: “Dai a César o que é de César.” O alerta é simples: não acredite cegamente, nem na Bíblia, nem em quem te obriga a pagar dízimo.

Cristo ensinou há dois mil anos, em um mundo sem ciência moderna. Reproduzir literalmente aquela sociedade hoje é ficção. O que permanece válido é o respeito às mulheres: “Atire a primeira pedra quem nunca pecou.” Sem isso, não há cristianismo autêntico.

E se vamos às chamadas sociedades pagãs, encontramos lições igualmente valiosas. Pitágoras, por volta de 500 a.C., disse: “É preciso educar as crianças para não ter de punir os adultos.” Escrevo estas linhas enquanto o Congresso aprova a redução da maioridade penal. Na prática, envia jovens infratores para a “academia do crime” — as prisões. Pior: a maioria desses jovens é descendente de uma população sequestrada para servir como mão de obra gratuita, que construiu a base desta sociedade.

Na hora de votar, lembrem-se: quem quer punir sem educar defende um Cristo inexistente do Velho Testamento. O Cristo real, do Novo, tinha doze discípulos. Os que pregam o Cristo conservador são inimigos da bolsa-peão, mas defensores fervorosos da bolsa-patrão.

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