O futebol domina o cenário atual, mas falta algo essencial: a arte da molecada da várzea.
Sim, é saudosismo — e assumo. Afinal, o setentão aqui viveu num tempo em que o asfalto era raridade. Para ver um pedaço dele, era preciso andar mais de um quilômetro. O transporte público ficava longe, e o campo era qualquer terreno baldio ou chácara abandonada. Era ali que nascia o futebol de verdade, o da bola de borracha e dos sonhos.
O que mudou desde os tempos em que os times eram “com e sem camisa”? Naquele Brasil, sonhávamos em jogar no Parque São Jorge. Havia palmeirenses, santistas, lusitanos — e poucos são-paulinos. Ser são-paulino era status: depois do golpe de 64, o governador nomeado torcia para o time do Morumbi, o que afastava a periferia. Mas os “menudos do Morumbi” popularizaram o clube, e o Juventus da Mooca virou o segundo time de todo mundo. O futebol era paixão, não negócio.
Hoje, o futebol é outra coisa. E aqui, o comentário pode parecer intolerância religiosa — mas não é. Na minha infância, evangélicos não jogavam futebol. Nem evangélicos, nem mulheres. Brizola já alertava: “No dia em que os evangélicos entrarem na política…” — e entraram. Só que “endireitaram” no pior sentido da palavra. Transformaram o projeto nazi-fascista em algo sacro.
Os mesmos que antes não podiam ouvir jogo pelo rádio agora jogam — e jogam com a mesma deselegância que levaram à política. O futebol de várzea, jogado por amor, desapareceu. Hoje, o que importa são os salários, os patrocínios, os contratos. A paixão virou planilha.
A conquista de um título mundial só interessa se não colocar em risco as “canelas de ouro”. Os milagres dos cultos evangélicos funcionam bem com atores, mas não com atletas. A paixão do povo pelo futebol é igual à cegueira do pobre de direita: incapaz de lembrar um único projeto popular vindo da direita, mas fiel à dor e à promessa de salvação.
O futebol virou espelho da política — e os “desselecionáveis” estão em campo, jogando por si mesmos.

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