Eu completaria vinte e seis anos e dois meses. Durante, no mínimo, dezoito deles, ouvi minha mãe implorar para poder visitar a própria mãe.
Segundo as histórias familiares, nossa vinda para a “terra do futuro” foi quase de supetão. Venderam tudo — a preço de banana — e partiram. Ainda conforme esses relatos, minha avó materna, cujo nome infelizmente não recordo, ficou para trás. As falas de minha mãe, repetidas ao longo dos anos, sobre o desejo de ver sua mãe antes que esta falecesse, marcaram minha infância e adolescência. Tornou-se, para mim, uma espécie de missão.
Há quem diga que a ditadura era eficiente. Mas bastava ver o tempo que uma simples carta levava para chegar: três meses. Pois é.
No mesmo dia em que deixamos São Paulo rumo à rodoviária Júlio Prestes, uma carta chegou em casa. Nela, a notícia da morte da mãe da minha mãe.
Dona Maria Aurora, minha mãe, teve os olhos banhados de lágrimas ao ouvir a voz do irmão caçula gritar “Pequena!”. Não teve tempo de enxugar o rosto antes de saber, pela carta que chegara horas depois, que sua mãe havia partido.
Adão Alves dos Santos
P.S.: Enquanto o goleiro de Cabo Verde, país que fala português, joga com o nome “Vozinha” às costas, o Brasil se rende a netinhos mimados. Não escrevo esta crônica para me redimir, mas em homenagem ao goleiro caboverdeano.
NÃO CONHECI
Simplesmente, não conheci,
Até, esteve marcado, mas,
No ano em que consegui planejar?
O ano era 1978,
Segunda férias planejadas da vida,
Mês, julho, ônibus, p'ra Jacobina BA.
Ah, antes de continuar, e até de recordar,
Duas constatações da época,
A primeira, local, a Vila Terezinha,
Além, de não ter transporte,
Nem saneamento, não tinha asfalto,
Nem mesmo um "ORELHÃO",
Putz, esta crônica chega além-mar,
Então, "telefone público".
Além das questões local,
A eficiência Brasil, dos tempos da ditadura,
Uma carta demorava três meses.
Esta realidade só mudou,
Quando os milicos, largaram o osso.
De volta, à viajem, meticulosamente planejada,
Quarta 8/8/78, hora do almoço,
Deveria, mas, a ansiedade da d. Maria,
Saímos antes disto.
Sabe aqueles três meses de uma carta,
Então, quarenta e quatro horas depois,
Jacobina BA, e a descoberta,
O vilarejo das Umburanas, ficava mesmo,
No município de Campo Formoso,
Transporte para as Umburanas,
Só no final da tarde, daquela sexta.
Quando o crepúsculo e a porta aberta,
Desperta o som rouco
"Pequena" onde havia mais lágrimas que voz.
Anesino Sandice

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