No ápice de nossos dilemas, persiste uma questão eterna e quase insolúvel: a distância entre saber ler — isto é, juntar fonemas e pronunciá-los — e compreender o que realmente está escrito. Essa lacuna, tão comum quanto devastadora, é o abismo entre o som das palavras e o sentido que elas carregam.
No enredo insalubre da apologia às “filas do osso”, muitos leem, mas poucos entendem. É o mesmo equívoco que sustenta a ideia de um Cristo conservador, figura inexistente nos textos bíblicos, mas frequentemente evocada até por mulheres que ocupam cargos de destaque — inclusive na Comissão Parlamentar em Defesa das Minorias — para exaltar a submissão feminina.
Não se trata de casos isolados. Há um contingente expressivo de parlamentares que, amparadas por discursos de seus pares, defendem um retrocesso civilizatório: um retorno simbólico ao império dos bordéis — que, aliás, nunca desapareceram. Esse conservadorismo tenta ressuscitar um mundo que nunca deixou de existir: o das agressões de gênero. Apenas se tornou mais discreto, escondido atrás dos vergonhosos “caiu da escada”, expressão que, por um tempo, parecia ter caído junto com os avanços das conquistas femininas.
O movimento conservador que emergiu do “quebra-quebra” de 2013 reacendeu algo abjeto: a velha desculpa do “caiu da escada”, agora agravada por uma onda de feminicídios. Acreditávamos que o fim da infame jurisprudência da “legítima defesa da honra” havia sepultado esse pensamento. Mas o caso anulado pelo STF mostrou que, embora não se formule explicitamente, essa lógica ainda habita a mente de muitos juízes país afora.
Por um lado, há um STF capaz de anular julgamentos infames; por outro, há quem veja nessa postura uma afronta à “pauta moral”. Essa reação alimenta um movimento político que busca eleger congressos cada vez mais inimigos do povo, dispostos a retaliar o Supremo sempre que ele ousa confrontar tais pautas.
Pautas que, de moral, não têm nada — apenas revelam uma profunda incapacidade de leitura
ENCRUZILHADAS
Avançamos, quem sabe?
É difícil comparar os "ontens",
Com o hoje, mas, de quê hoje mesmo?
Tem o hoje dos bolzominiuns,
Que para que este hoje exista,
É preciso que exista, "umas des'leituras".
Para que o hoje desdes seres,
Que friamente olhando,
São abjetos, não enquanto pessoas,
Mas, pelas objeções, que fazem a realidade.
São pessoas muitas vezes,
De boa entonação de voz,
Que criam, o universo dos abjetos.
No abjeto universo dos abjetos,
Salutar era a fila do osso.
No abjeto universo dos abjetos,
Salutar era a agressão à jornalistas,
Principalmente, quando mulheres.
No abjeto universo dos abjetos,
Salutar era oferecer cloroquina para emas,
Neste abjeto universo,
Ver pessoas morrendo aos milhares, "quase um milhão",
Era para lá de salutar,
Afinal, tudo isto acontecia,
Aos complacentes olhares de pastores,
"Que olhavam os pombos",
Não, alguns deles, olhavam barras de ouro.
Todos, certamente não,
Só que a cegueira também é corrupção.
Santo Semfé

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