O título é emprestado de Caetano, mas o sentido aqui é outro. Se na canção o Haiti é metáfora, nesta crônica ele é espelho — um reflexo incômodo do que somos e do que fingimos não ver. E sim, este texto é um dos poucos pensados antes de nascer, o número 2246, para ser exato.
No início do século XIX, os povos originários do Haiti, somados aos africanos trazidos à força, fizeram muito mais que uma guerra de independência. Realizaram uma revolução — uma Revolução Francesa tropical, insular, sem nobres nem piedade. Se os franceses haviam decapitado sua aristocracia, os haitianos eliminaram os invasores. E o resultado foi o esperado: conquistaram a antipatia de todas as nações imperialistas. Não apenas do século XIX, mas de todos os séculos seguintes.
O rancor dos “civilizados” atravessou gerações. O Haiti, até hoje, carrega o castigo por ter ousado ser livre. É o país com o menor Índice de Desenvolvimento Humano das Américas — não por falta de talento ou coragem, mas por excesso de punição histórica. O ressentimento dos povos que se dizem cristãos parece não ter prazo de validade.
Somemos a isso a dificuldade de atrair investimentos e os problemas geográficos. O resultado é um caldo de instabilidade que lembra, em muito, as periferias brasileiras dominadas pelo crime. Violência, pobreza e abandono — o mesmo roteiro, apenas com sotaques diferentes.
Foi também no Haiti que uma força de paz brasileira teria protagonizado episódios dignos de Platoon, o filme de Oliver Stone sobre o Vietnã. Se as denúncias forem verdadeiras, há ecos incômodos entre o pequeno general do “golpe dentro do golpe” dos anos 70 e os ensaios de ruptura que antecederam as eleições de 2022. História, no Brasil, é sempre um déjà vu.
E quando o Brasil enfrenta o Haiti em campo, na segunda Copa do país caribenho, a diferença vai além do placar. Enquanto a seleção haitiana mal consegue treinar, o Brasil joga com a arrogância de quem acredita ser superior. Mas, em vontade, o Haiti é favorito — e de longe.
Minha inveja dos haitianos vem do início do século XIX. Não pela violência, que meus princípios cristãos não permitem celebrar, mas pela coragem de confiscar o que lhes foi tomado. Os bens, as terras, a dignidade. O Haiti ousou fazer o que o Brasil nunca teve coragem de tentar: romper de verdade com seus senhores.
O HAITI É AQUI
O séc era XV,
Colombo, apertou por aqui,
Oficialmente, mas, não certamente,
Foi o primeiro a viajar para o ocidente,
"Sabendo" da circunferência da Terra,
Querendo chegar ao oriente.
Daí, terra e cultivo,
Antes, da importação "forçada" de África,
Tentaram impor aos nativos,
O mesmo trabalho forçado.
Então o "católico" papel da igreja,
Em abençoar a escravização.
Chego a invejar os "TAINOS",
Chego a invejar os "CINONEYS".
Só que não, no séc XIX,
A população já era misigenada.
Então, "quase" chego a homenagear...
Os haitianos.
Anesino Sandice

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