Confesso: despertei para o mundo já consciente das guerras. A primeira notícia que me marcou foi sobre o Vietnã. Logo depois, ao aprender a ler, deparei-me em um jornal antigo com relatos da guerra da Coreia. Pouco a pouco compreendi o verdadeiro significado desses conflitos — não o romantizado das literaturas escolares, mas o peso real das disputas que moldavam o século.
Vivíamos sob um bombardeio de informações que tentavam vender a imagem de um Estado de Israel vitimizado, especialmente durante a Guerra dos Seis Dias, quando se buscava justificar a necessidade de “respirar” e proteger seus cidadãos.
O ano era 1967. No Brasil, o primeiro general ditador — apresentado como nacionalista de boa índole, embora tivesse golpeado a democracia para o delírio das ligas católicas — morria em um acidente estranho. Outro general assumia o poder, enquanto, no mesmo período, Israel realizava sua primeira expansão territorial. Antes que me acusem de “anti-sionista”, ressalto: minhas opiniões são guiadas por princípios cristãos e pacifistas, que defendem, por mera lógica humana, o direito à identidade de todos os povos.
Trato aqui de uma conjunção histórica. Não para confundir, mas para sugerir que até a invasão das Américas carrega, como pano de fundo, essa insana guerra antropológica.
A antropologia, aliás, pouco nos foi ensinada nas escolas do Brasil colônia. Por isso, muitos desconhecem — inclusive este “Adão” que não é o bíblico, mas o nosso aqui.
Séculos antes de Cristo, no Oriente Médio, existiu o Império Persa. Oficialmente, falava vinte línguas. Fazia guerras, sim, mas não escravizava os derrotados: tratava-os como iguais. Quem duvidar pode visitar, ainda que virtualmente, o Museu Imperial de Londres e buscar a tradução das inscrições cuneiformes do Cilindro de Ciro, fundador da dinastia aquemênida. Apesar de ter conquistado a Babilônia, libertou os judeus escravizados — como relatado em Esdras 1:1-4. Ali, talvez, esteja a semente do que viria a ser chamado de direitos humanos.
Grande parte do nosso saber vem dos herdeiros do Império Romano, que absorveu a Bíblia, ou da lógica grega, que se opôs a ele. Mas ambos são incapazes de oferecer outro olhar.
É justamente esse olhar que proponho: despertar a curiosidade sobre povos cuja atualidade muçulmana muitas vezes impede uma visão justa. É isso que sugiro — um olhar mais amplo, menos condicionado, mais humano.
É DURO PENSAR FORA DA CAIXINHA
O mundo que herdei,
É o mundo que meus pais herdaram,
Que herdaram dos meus avós,
Que nem assim, é justo.
Apesar das múltiplas heranças,
Apesar da comunidade,
Não preciso, "nem devo",
Ter um olhar cego.
Tá, vão me acusar de ser comunista,
Ah, então te lembrarei quê,
Teus saberes, ops, teus pseudos-saberes,
Têm por base a unicidade de um deus,
Então, sonhando acordado, te lembro,
O simples fato da tua crença,
Crer um deus único
Deveria nos fazer iguais.
E sou eu, que pejorativamente,
Sou acusado de ser comunista?
Santo Semfé

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