quinta-feira, 10 de abril de 2025

Alô Santista! Lembra do Kazu? Veja por onde ele anda e conheça seus recordes!


'Fui moldado no Brasil', diz recordista Kazu Miura


O lendário japonês, que estreou como profissional com a camisa do Santos e segue jogando aos 58 anos, se maravilha com o progresso do futebol em seu país e diz que seleção pode ganhar a Copa do Mundo.

Em um belo dia de março em Suzuka, uma pequena cidade conhecida mundialmente por seu circuito de corridas, um homem amarra suas chuteiras mais uma vez para defender a equipe local.

Esse homem é Kazuyoshi Miura. Conhecido pelo apelido de "Rei Kazu", Miura é um ídolo do futebol japonês, amado por torcedores ao redor do mundo. Inclusive no Brasil ele deixou sua marca, ficando conhecido simplesmente como Kazu. Nos anos 80 ele fez história ao se tornar o primeiro nipônico a jogar no futebol (então) tricampeão mundial, tendo vestido a camisa do mítico Santos e diversos clubes, tendo se sagrado duas vezes campeão estadual: uma pelo CRB em Alagoas em 1987 e outra pelo Coritiba no Paraná em 1989.

Hoje ele tem 58 anos. E ainda joga. É algo incrível, uma conquista com significado mais profundo.

O sol brilha, reinando sobre uma tarde amena em um bairro tranquilo. O homem que me recebe no clube do Atlético Suzuka tem um comportamento gentil, mas um olhar firme, e um ar régio, condizente com seu apelido.

Nesta entrevista exclusiva para a FIFA, Kazuyoshi Miura fala de sua autoconfiança inabalável e sua paixão sem fim pelo futebol.



Mentalidade forjada no Brasil
A primeira pergunta que vem à mente ao falar com Miura é por que ele ainda está jogando aos 58 anos e se já considerou a aposentadoria. Quando coloco isso, ele responde sem hesitar. "Aposentadoria? Nem por um segundo", responde. "Dito isso, quando eu tinha cerca de 35 ou 40 anos, comecei a dizer a mim mesmo: 'Não posso continuar jogando assim'. Em vez de pensar em desistir, era mais uma questão de me esforçar para entregar mais. Nesse sentido, venho criando autodisciplina. Não é que a palavra 'aposentadoria' não esteja no meu vocabulário, mas sim que nunca senti desejo de fazer isso."




Já se passaram 40 anos desde que Kazu começou sua carreira profissional no Brasil pelo Santos, em 1986, depois de ser formado nas categorias de base de futsal do Juventus, de São Paulo. Durante todo esse tempo, a postura fundamental de Miura em relação ao futebol permaneceu constante.

"Eu quero vencer. Quero melhorar. Quero jogar. Não jogar é doloroso para mim, e isso sempre foi assim. Se algo mudou, é que quando eu era mais jovem não tentava entender o treinador tão bem! Mas à medida que envelheci, consegui entender melhor os treinadores e posso me colocar no lugar deles."

Hoje em dia, é comum que jogadores japoneses atuem no exterior, e não é surpresa vê-los jogando em alguns dos maiores clubes da Europa. Quatro décadas atrás, no entanto, a decisão de Kazu de ir para o Brasil era quase única, e o distinguiu como um pioneiro.

"Meu senso de profissionalismo, minha postura de vencer ou morrer e minha atitude em relação aos treinos foram todos moldados no Brasil."

Quando questionado por que ele escolheu o Brasil quando o ambiente do futebol ali não estava em seu melhor momento, e se ele faria a mesma escolha agora, ele responde sem hesitar.

"Para mim, na época, tinha que ser o Brasil."


Mesmo quando sugiro que talvez fosse diferente olhando para trás, ele se mantém firme: "Eu adorava como o futebol era jogado no Brasil e admirava os jogadores brasileiros. Tenho certeza de que teria ido para lá de qualquer maneira", conclui, com um brilho juvenil nos olhos.

Hoje em dia, menos jogadores japoneses vão para o Brasil, o que dá margem à pergunta de se aqueles que foram teriam decidido de forma diferente se o atual ambiente do futebol no Japão estivesse existisse há 30 anos. Quando pergunto a Miura se ele inveja os jogadores japoneses atuais, ele sorri. "Sim, invejo," diz. "Mas as coisas são tão diferentes de como eram há 40 anos. Não é apenas futebol, há jogadores de beisebol, basquete, vôlei e tantos outros atletas japoneses jogando no exterior. Os esportes se tornaram globais. É realmente uma coisa boa que agora haja um ambiente mais competitivo para permitir que os jogadores aproveitem essa tendência."

"A alegria da vitória, a dor da derrota e o significado do trabalho duro — aprendi tudo isso no Brasil. Acredito sinceramente que o fato de ainda estar jogando é graças à experiência que adquiri quando estive lá. Acho que um jogador que esteve no topo do futebol japonês teria dificuldades para continuar jogando em clubes locais em ligas inferiores, mas eu não tenho problema com isso por causa do meu tempo no Brasil."

A carreira de Kazuyoshi Miura o levou de estádios espetaculares de 50 mil lugares a campos onde o público mal chega a mil pessoas. Cada uma dessas experiências o levou até onde está agora.

O crescimento da seleção japonesa

A seleção japonesa há muito é uma das principais do futebol asiático. Na verdade, apenas alguns dias após esta entrevista, o Japão venceu o Bahrein e se tornou a primeira equipe a garantir a classificação para a Copa do Mundo após os países anfitriões. Com o Japão agora apresentando resultados tão impressionantes, o que pensa um dos homens que possibilitaram a evolução da seleção?

"Ela está um passo à frente de todos os outros na Ásia agora, não? Os resultados falam por si", disse. "Mas só ter bons jogadores não garante resultados por si só. Lembro-me de quando as eliminatórias para a Copa do Mundo eram algo estressante. Isso é o que torna a regularidade das vitórias da seleção agora ainda mais impressionante."

Enquanto hoje o Japão está acostumado a se classificar para a Copa do Mundo, isso não acontecia há 30 anos.

"Na minha época, muitos jogadores se sentiam inferiores aos jogadores estrangeiros, e você podia ver isso no futebol deles. Mas eu não. Eu me tornei profissional no Brasil, então, independentemente de estarmos jogando contra a Coreia do Sul, a Coreia do Norte ou a China, me sentia mais do que capaz de enfrentá-los."

Essa mentalidade vencedora foi um sopro de ar fresco para o Japão e isso, junto da sua autoconfiança, o ajudou a construir as bases do futebol japonês.

"Perder não é uma opção. Essa era minha atitude quando jogava. Acho que, naquela época, muitos da equipe jogavam nervosos, mas isso mudou. Eles costumavam ficar ansiosos quando enfrentávamos jogadores estrangeiros, mas isso também mudou. Não importa quem sejam os adversários — europeus, sul-americanos ou africanos —, o Japão pode vencê-los. Esse é o tipo de mentalidade que nos fortalece."

Esse tipo de pensamento ainda está profundamente enraizado no Japão, mas os jogadores em campo não estão mais focados nisso. Pelo menos, é o que Miura acredita.

"Individualmente, acho que a atual seleção do Japão pode enfrentar qualquer um de igual para igual. Todos os jogadores são especiais, mas acho que Takefusa Kubo se destaca mesmo nesse grupo. Ele não tem muito porte físico e você não o verá empurrando os defensores, mas ele é muito inteligente e usa isso a seu favor. Realmente gosto disso nele."

Uma chance com o Mundial de Clubes

O Mundial de Clubes da FIFA 2025™ começa em junho. Com 32 equipes competindo, o torneio está maior do que nunca e vem atraindo a atenção de todo o mundo do futebol. A competição é quase como uma segunda Copa do Mundo, criada para consagrar o melhor time do mundo. Perguntei a Miura o que ele pensa sobre essa competição e como ela pode levar o sonho do futebol para todos.

"O Mundial de Clubes é definitivamente o lugar certo para decidir a melhor equipe do mundo. Quando eu era mais jovem, não havia nada assim, mas agora isso se tornou realidade."

"Estou jogando atualmente pelo Atlético Suzuka e é loucura pensar que, daqui a 30 anos, ele poderia estar jogando contra equipes como River Plate ou Internazionale no Mundial de Clubes!"

O representante do Japão neste ano é o Urawa Reds, que jogará contra River Plate, Internazionale de Milão e Monterrey na fase de grupos. Miura brinca: "É claro, pode acabar sendo que o Real ou o Manchester City vai ser o campeão", mas, acrescenta, "o futebol é essencialmente uma questão de perseguir sonhos, e isso inclui tudo isso."

"Até onde uma equipe japonesa pode ir competindo com os melhores dos melhores? Estou realmente animado para ver e espero que a competição seja um sucesso."

Miura também deu sua opinião sobre as equipes que participarão da competição.

"Eu ficaria muito feliz se uma equipe brasileira conseguisse ganhar. Ver uma equipe do Brasil ou de outro lugar da América do Sul vencendo, em vez de uma equipe europeia, seria bom."


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