quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

FEMINICÍDIO: Vídeo de execução pública de uma mulher desarmada e seu filho por policial causa indignação massiva

 

Philippines: Video of police killing sparks mass outrage - Off Duty Cop Shoots Mother and Son in The Head Execution Style Over Noise Dispute

por John Malvar

É semana de Natal e as aldeias provinciais de todas as Filipinas brilham sob as luzes coloridas das lanternas de parol ficam cheias de gente com o regresso dos trabalhadores que vivem em Manila e retornam para as férias. Os disparos ocorreram em Paniqui, Tarlac, uma cidade de cultivo de arroz no extremo norte de Central Luzon, cerca de quatro horas a norte de Manila.

Sonya Gregorio, de 52 anos de idade, e seu filho, Frank Anthony, de 25, estavam reunidos com amigos num gramado entre as casas de bloco inacabadas, construídas umas ao lado das outras nas bordas de um arrozal. Frank Anthony e os vizinhos lançavam boga, um fogo de artifício improvisado construído a partir de tubos de pvc.


Jonel Nuezca, um sargento-mor da polícia do município de Paranaque, em Metro Manila, que estava de visita em Paniqui durante suas férias, chegou com o seu revólver de serviço no cinto e com sua filha de 13 anos ao lado e abordou a família. A discussão começou por causa do barulho da boga, mas rapidamente se transformou numa disputa sobre a propriedade e o direito de passagem. Brigas acaloradas em torno do direito de propriedade são comuns nas zonas rurais das Filipinas, onde muitas vezes só existe uma rua e os terrenos e casas se aglomeram em busca deste acesso.

O que é descrito a seguir está documentado nas gravações brutais do assassinato.


Nuezca ameaçou Frank Anthony verbal e fisicamente, sacando sua arma e declarando que iria o prender. 

Ele não possuía um mandado, nem acusações, nem estava de serviço. No clima de violência policial generalizada criado pelo governo Duterte, ser levado por um agente da polícia poderia facilmente significar uma sentença de morte. Se um agente da polícia disparar contra alguém que alegadamente resistiu, "nanlaban", as acusações contra o policial são imediatamente retiradas.

Sonya Gregorio agarrou-se ao seu filho, enrolando os braços em volta do seu peito, tentando desesperadamente protegê-lo do policial que o arrastava pelos braços. Os vizinhos e as crianças reunidas gritavam de medo e raiva, impotentes. O que eles poderiam fazer? Chamar a polícia?

A filha de Nuezca ameaçou a mãe, dizendo-lhe: "O meu pai é um policial". "Não quero saber", respondeu Sonya Gregorio. Nuezca atirou na cabeça de Gregorio à queima-roupa, depois em seu filho, e depois disparou contra os seus corpos caídos no chão. "Missão cumprida", disse ele, colocando o braço no ombro da filha enquanto deixavam o local.


Nuezca conduziu sua motocicleta até um departamento vizinho da polícia em Rosales, Pangasinan, onde se entregou. Não há dúvida de que ele esperava impunidade, a mesma impunidade generalizada frente a acusações criminais que foi estendida à polícia em todo o país durante os últimos quatro anos. Ele não tinha calculado que o vídeo do seu crime ficaria famoso e desencadearia uma tempestade de protestos.

O que o vídeo explícito documentou não foi um acontecimento excepcional, mas a realidade cotidiana dominada pela violência policial gerada pela chamada guerra às drogas do governo Duterte, o Bolsonaro das Filipinas. Todos os dias, nos últimos quatro anos, são feitas dezenas de vítimas de assassinatos de policiais e vigilantes. Três ou quatro outras mortes desse tipo foram relatadas no mesmo domingo do duplo homicídio em Paniqui.

Presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte:
"Não dou a mínima para a matança de milícias".


À medida que o vídeo do homicídio viralizava, centenas de milhares de posts furiosos circulavam nas redes sociais com #StopTheKillingsPH (Parem os Assassinatos nas Filipinas) e hashtags semelhantes. Um número significativo de posts exigia que a polícia fosse totalmente abolida.

Reconhecendo a revolta generalizada, o governo distanciou-se de Nuezca, referindo-se às suas ações como um crime e um "incidente isolado". Na segunda-feira à noite, procurando conter a crescente indignação, Duterte fez um discurso não programado à nação, no qual afirmou que Nuezca não é um criminoso, era "louco".

O assassinato de Sonya e Frank Anthony Gregorio não foi um "incidente isolado". Nuezca, como rapidamente foi revelado, tinha cometido vários homicídios anteriores, dois em 2019. Fora acusado de má conduta por ter recusado testes de drogas e recusado comparecer em tribunal. Todas as acusações haviam sido retiradas. O seu caso é representativo do clima de impunidade criado por Duterte.


Duterte fez inúmeros discursos nos quais disse publicamente à polícia que, se os suspeitos resistirem, "disparem". "Eu os protegerei", declarou repetidamente. Desde que tomou posse, mais de 8.000 pessoas foram mortas pela polícia e mais de 20.000 foram mortas por vigilantes. Ele está presidindo uma guerra contra os pobres e a população trabalhadora de proporções genocidas.

Na semana passada, o Tribunal Penal Internacional (TPI) anunciou que sua investigação preliminar sobre a condução da guerra às drogas nas Filipinas tinha revelado provas de "crimes contra a humanidade" pelo governo Duterte, incluindo assassinatos em massa e tortura. A investigação seria ampliada até 2021, declararam.

Debold Sinas, chefe da Polícia Nacional das Filipinas

Sinas emitiu uma declaração condenando Nuezca. Mas, em seguida, avisou o público que no futuro ninguém deveria gravar ou fotografar a atividade policial.

A indignação em massa com os assassinatos em Paniqui, e os apelos generalizados pelo fim das execuções policiais, derrubam a mentira perniciosa espalhada na mídia de que a "guerra às drogas" de Duterte é "extremamente popular". Essa afirmação tão repetida, difundida nos meios de comunicação internacionais, baseia-se em pesquisas com a população que relatam simultaneamente que 8 em cada 10 filipinos temem pelas suas vidas e pelas vidas dos seus entes queridos em decorrência dos assassinatos policiais. O país está tomado por um clima de medo, e não de aprovação às políticas fascistoides de Duterte.

O apoio a essas políticas limita-se às elites no poder, que veem na repressão autoritária uma defesa dos seus interesses de propriedade contra a ameaça de agitação da classe trabalhadora. Eles estão reabilitando todo o antigo aparato da ditadura da era Marcos. Na cidade de Paniqui, onde Sonya e Frank Anthony Gregorio foram assassinados, uma estátua de Ferdinand Marcos, o ditador brutal e odiado, foi erguida no centro da praça da cidade.



terça-feira, 22 de dezembro de 2020

DEZEMBRO VERMELHO - Silvia Aloia e o Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas (MNCP) - Há muita vida depois de um teste positivo de AIDS

ELA RECUSOU A SENTENÇA DE UM RESULTADO POSITIVO E DECIDIU VIVER PARA LEVAR VIDA CIDADÃ PARA TODAS AS MULHERES

Silvia Aloia, liderança do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas, discente no curso de Administração em Sistemas e Serviços de Saúde na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), uma lutadora pelos direitos das mulheres vivendo com HIV/aids, fala com a galera do Super Batepapo sobre os desafios de oferecer aos infectados pelo HIV uma vida digna. Proteção e preconceitos são abordados nessa conversa.
A história de Silvia com a capital gaúcha e com o Brasil começou em 1982, quando ela era uma menina de 12 anos e sua família fugia do regime militar uruguaio. A adaptação não foi fácil. “Mas hoje meu coração é brasileiro”, garante.

Aos 16 anos, precoce, decidiu morar sozinha. Aos 21, em 1990, engravidou da filha Lauren e – com o apoio da família – encheu-se de planos para o futuro. “Ser mãe era um sonho”, diz. Aos oito meses de gestação, porém, durante o pré-natal, o susto que mudou a sua vida: Silvia descobriu que tinha HIV.


O período – como não poderia deixar de ser – foi marcado por grande sofrimento. Silvia foi demitida do emprego, em clara manifestação de discriminação, e ficou “em estado de choque”. “Eu tinha muito, muito medo”, revela, lembrando que se “sentia suja”, mas que sabia que não tinha feito “nada demais”. Some-se a isso o temor de a filha também nascer com HIV e a pressão dos médicos para que revelasse sua sorologia à família – o que ela não queria fazer. “Fui sobrevivendo – mas demorei muito tempo para me aceitar”, diz. A fase ruim foi encerrada com alegria aos 16 meses da filha, quando descobriu que Lauren não tinha HIV. “Foi um momento de grande emoção”, lembra, com um sorriso.
Mas Silvia continuava em negação sobre sua própria sorologia – vivendo com HIV, mas sem tomar medicamentos durante mais de oito anos. No início da década de 2000, passou a perceber os sintomas da doença – estava quase sem cabelo e sentia-se constantemente mal –, mas ainda assim relutava em procurar pelos serviços de saúde. “Um dia não aguentei mais e fui ao médico: eu tinha várias infecções oportunistas e minha contagem de células CD4 havia caído para apenas quatro – o que significa a possibilidade de morte iminente”, explica, com emoção velada. Foi então que Silvia decidiu contar tudo para Lauren. A filha tinha então 12 anos e entrou em pânico. Em 2003, Silvia começou a tomar os medicamentos antirretrovirais. “Depois de um ano e meio, voltei a dizer: eu sou a Silvia”.
(Os linfócitos T-CD4 são as células mais importantes do sistema imunológico, que protege o organismo contra infecções e doenças. A sua contagem revela quantas células CD4 estão presentes em uma única gota de sangue; quanto maior o número de células CD4 no organismo, melhor. Desde dezembro de 2013, com a adoção do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos, o Brasil indica o tratamento antirretroviral para todas as pessoas com HIV, independentemente dos níveis de CD4 – o que vem resultando no aumento no número de pessoas com HIV em tratamento e com carga viral indetectável. A propósito: carga viral indetectável é a condição de uma pessoa soropositiva que atingiu a supressão do vírus como resultado do uso regular de medicamentos antirretrovirais. Quem tem carga viral indetectável não está curado do HIV, mas, enquanto mantiver o tratamento antirretroviral, tem o vírus controlado e preso em certas células do organismo – sem se multiplicar, sem danificar o organismo e sem ser transmissível.)

Hoje, 16 anos depois de estar à beira da morte, Silvia tem carga viral indetectável. (É quase um milagre, e prova do que a fé e a boa adesão ao tratamento antirretroviral conseguem alcançar.) Ela cursa Administração em Sistemas e Serviços de Saúde na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS) e lidera o MNCP, lutando pelos direitos das mulheres vivendo com HIV/aids. Está casada com um companheiro sorodiferente (quando um dos parceiros tem HIV e o outro, não) que a faz muito feliz; há pouco, quando a filha de Lauren nasceu, tornou-se avó. É extremamente respeitada por sua liderança na luta contra o HIV/aids e em suas interfaces, na saúde coletiva, com temas correlatos como gênero e população negra, por exemplo.
Mas o final feliz e o ativismo não amainam a realidade: “Não é fácil ter HIV; não é fácil tomar medicamentos”. Silvia resume: “Se você tem HIV, precisa ter boa adesão ao tratamento, além de acesso à informação e a todos os seus direitos”.
 

Assessoria de Comunicação
Departamento das IST, do HIV/Aids e das Hepatites Virais
Conheça também a página do DIAHV no Facebook:
https://www.facebook.com/ISTAidsHV

 Equipe Conjunta do UNAIDS em Brasília para debater as estratégias e ações do Plano Conjunto da ONU sobre AIDS no Brasil - Estratégia 2016-2021 e do contexto delineado pela Agenda 2030.


 O Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas (MNCP) 

Quem somos

O Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas (MNCP) é uma organização brasileira formada por mulheres vivendo com HIV e AIDS e pessoas que convivem com a epidemia. O movimento foi criado para promover o fortalecimento de mulheres vivendo e convivendo com o HIV e a AIDS, independente de credo, orientação sexual, raça ou cor, ou orientação político-partidária e identidade de gênero em nível municipal, estadual, regional e nacional e internacional.

Missão, visão e valores

Promover ações para fortalecimento integral das Mulheres vivendo com HIV/AIDS com foco no acesso à informação e na garantia dos direitos humanos.Nossos princípios

O fortalecimento das mulheres vivendo com HIV, através do estabelecimento de estrategias de atuação que as levem à aceitação da sua condição sorológica para o HIV;
O combate ao isolamento e à inércia das mulheres vivendo com HIV/AIDS, reafirmando sua cidadania e promovendo a troca de informações e experiências com o objetivo de melhorar sua qualidade de vida;
A promoção da prevenção à infecção pelo HIV, buscando o controle da epdemia no Brasil;
A inclusão de Mulheres Vivendo com HIV/AIDS na construção de políticas públicas buscando a garantia da saúde integral.

    ASSISTA SILVIA ALOIA NO SUPER BATEPAPO

Dezembro vermelho: o que é?

O último mês do ano também tem um tema para chamar de seu. Você já ouviu falar sobre dezembro vermelho? Sabe sobre o que se trata? Se não, chegou a hora de conhecer. Continue lendo o artigo para entender mais sobre!

Dezembro vermelho

Mês da conscientização e combate à Aids


1º de dezembro é o Dia Mundial de Luta Contra a Aids.

A data foi estabelecida internacionalmente em 1987 por decisão da Assembléia Mundial de Saúde com apoio da Organização das Nações Unidas (ONU). No Brasil, o Ministério da Saúde adotou a data um ano depois.

O objetivo foi o de reforçar a solidariedade, a tolerância, a compaixão e a compreensão com portadores de AIDS.

Nada mais justo d

A profunda espiritualidade de Rosa Luxemburgo em seu último natal



Nestes momentos... eu gostaria tanto de lhe transmitir esta chave mágica, para que você perceba sempre e em qualquer situação o lado bonito e alegre da vida


José Tolentino de Mendonça é um cardeal, poeta e teólogo português, nascido em Machico, Madeira, em 15 de Dezembro de 1965.

O cardeal Tolentino é professor universitário e recebeu em Junho de 2020 o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, devido à "capacidade que demonstra ao divulgar a beleza e a poesia como parte do património cultural intangível da Europa e do mundo. E não é por menos também considerado como uma das vozes mais originais da literatura portuguesa contemporânea e reconhecido como um eminente intelectual católico. A sua obra inclui poesia, ensaios e peças de teatro assinados apenas como José Tolentino Mendonça.

Atualmente, ele é o responsável pelo Arquivo Apostólico do Vaticano e pela Biblioteca Apostólica Vaticana, na Cúria Romana. E assim sendo, está entre um dos mais respeitáveis interlocutores do Papa Francisco. Tolentino foi responsável por discutir em publico desde a igreja a espiritualidade deste mulher que é um ícone do pensamento libertário e libertador. Marxista, ateia, ela nos ensina espiritualidade, com qualificou o site Paz e Bem, na matéria que segue:

Este olhar resulta de um encontro improvável, entre ela e o arcebispo José Tolentino Mendonça, nomeado em junho de 2018 pelo Papa Francisco, depois de conduzir, de 18 a 23 de fevereiro, o retiro de Quaresma do Papa e dos membros da Cúria Romana. Como arcebispo, foi nomeado para os cargos de Arquivista e Bibliotecário da Santa Sé. Ele foi o responsável pelo retiro espiritual dos bispos brasileiros durante a Assembleia Geral da CNBB deste ano -o retiro aconteceu em 4 e 5 de maio.

Tolentino é hoje uma símbolo referência mundial da espiritualidade do papado de Francisco. É significativo, portanto que ele dedique um importante trecho de seu livro “A Mística do Instante” a Rosa Luxemburgo.

Escreveu Mendonça:

“Um dos textos mais comoventes que eu conheço é uma carta de Rosa Luxemburgo escrita a uma amiga da prisão feminina de Wroclaw, por ocasião do Natal, poucos meses antes da sua execução. (…)
Era o terceiro Natal que a filósofa e sindicalista passava na prisão. Ela buscou uma árvore de Natal para si, mas não conseguiu remediar outra coisa, senão um arbusto miserável e despojado, que, mesmo assim, carregou para a própria cela.
E isso a levou a se interrogar sobre a ‘ebriedade alegre’ que conseguia armazenar naquele inferno, aquela irredutível espécie de confiança que persistia nela apesar do desconforto e da desolação.
Ela escreveu naquela noite: ‘Estou aqui deitada, sozinha, em silêncio, envolta nestes múltiplos e escuros lençóis da escuridão, do tédio, da prisão de inverno – e, enquanto isso, o meu coração bate de uma alegria interior incompreensível e desconhecida, como se eu fosse caminhando ao sol radioso em um prado florido. […] Nestes momentos eu penso em você e eu gostaria tanto de lhe transmitir esta chave mágica, para que você perceba sempre e em qualquer situação o lado bonito e alegre da vida’.
E, quando se pergunta mais profundamente o porquê de tanta ‘felicidade’, ela declara: ‘Eu não o encontro, de fato, e não posso deixar de sorrir ainda de mim mesma. Acho que esse segredo nada mais é do que a própria vida’.
A última parte da carta não é menos inesquecível. Rosa Luxemburgo assiste à chegada de carros repletos de pesados sacos de indumentos militares, que as prisioneiras deverão emendar. São puxados por búfalos capturados na Romênia e exibidos como troféus.
Pela primeira vez, ela observa a indizível dor dos animais. É um choque e uma revelação. Quando se atreve a pedir ‘um pouco de compaixão’ por aquelas criaturas esgotadas, o carreteiro lhe responde violentamente: ‘E de nós, quem tem piedade?’. E, na frente dela, recomeça a bater fortemente nos búfalos.
O olhar de Rosa Luxemburgo se fixa, então, em um deles. O animal sangrava, mas permanecia imóvel, com os olhos mais mansos do que ela jamais tinha visto. Naqueles olhos, ela percebeu uma impotência semelhante a de uma criança que estivesse chorando por um longo tempo sem ser ouvida.
‘Era exatamente a expressão de uma criança que é punida duramente e não sabe por qual motivo nem por que, que não sabe como escapar do sofrimento e da força bruta… Eu estava diante dele, o animal me olhava, as lágrimas escorriam dos meus olhos, eram as suas lágrimas. Diante da dor de um irmão querido, é impossível não ser sacudido pelos mais dolorosos soluços como na minha impotência diante desse sofrimento mudo.’
Da empatia que ligava naquele momento uma mulher a um anônimo animal ferido, nascia uma nova forma de resistência à brutalidade e à barbárie. ‘Diante dos meus olhos, vi passar a guerra no seu estado puro’: Rosa Luxemburgo compreendeu que uma comunhão entre os seres humanos e as outras criaturas não é apenas possível. É urgente e necessária.

Carta de natal de Rosa Luxemburgo



Do blog: Esquerda


Em meados de dezembro de 1917, Rosa Luxemburgo escreveu esta carta a Sophie Liebknecht. Foi o último dos três natais que passaria na prisão. Apesar de só ter sido libertada em novembro do ano seguinte. A partir daí o tempo acelerou tragicamente. Até janeiro de 1918.
Karl está na prisão de Luckau desde há um ano. Tenho pensado tanto nisso neste mês e sobre como apenas passou um ano desde que me vieste ver a Wronke e me deste aquela adorável árvore de Natal. Desta vez arranjei uma aqui. Mas trouxeram-me uma árvore raquítica com alguns dos ramos partidos – não tem comparação com a tua. Nem sei como vou conseguir colocar-lhe todas as oito velas que tenho para lhe por. Este é o meu terceiro Natal encarcerada mas não deixes isso desanimar-te. Estou tão tranquila e alegre como sempre. Na última noite fiquei acordada por muito tempo. Tenho de ir para a cama às dez mas não consigo adormecer antes da uma da manhã, por isso deito-me no escuro, ponderando muitas coisas.
Na última noite os meus pensamentos fluíram desta forma: “é tão estranho que esteja sempre numa espécie de intoxicação alegre apesar de não ter causas suficientes para isso. Aqui estou eu deitada numa cela de prisão escura sobre um colchão duro como uma pedra; o edifício tem a sua habitual quietude de adro de igreja, de tal forma que se poderia já estar sepultada; através da janela cai cruzando a cama um cintilar de luz do candeeiro que está toda a noite aceso em frente da prisão. A espaços consigo ouvir à distância o barulho fraco do comboio que passa ou bem perto a tosse seca do guarda prisional tal como as suas botas pesadas já que ele dá algumas passadas lentas para esticar as pernas. O rangido do cascalho sob os seus pés tem um som tão desesperançado que toda a fadiga e futilidade da existência parece ser assim irradiada na noite sombria e húmida. Deito-me aqui sozinha e em silêncio, envolvida nos múltiplos agasalhos negros da escuridão, do tédio, da falta de liberdade e do inverno – e contudo o meu coração bate com uma incomensurável e incompreensível alegria interior, tal como se me estivesse a mover num raio de sol brilhante num prado florescente

E na escuridão eu sorrio à vida, como se fosse possuidora de um talismã que me tornasse capaz de transformar tudo o que é mau e trágico em serenidade e felicidade. Mas quando procuro na minha mente a causa desta alegria, encontro que não há causa para ela e apenas consigo rir-me de mim própria” – acho que a chave para o enigma é simplesmente a própria vida, esta profunda escuridão da noite é leve e bonita como veludo, basta olhar para ela da forma certa. O rangido do cascalho húmido sob as pisadas lentas e pesadas do guarda prisional é igualmente uma adorável pequena canção de vida – para quem tenha ouvidos para a ouvir. Em tais momento penso em ti, e em como faria o que pudesse para te entregar esta chave mágica também. Assim, em todos os tempos e lugares, serias capaz de ver a beleza e a alegria da lida; então também poderias viver numa doce embrieguês e fazer o teu caminho por entre um prado fluorescente. Não penses que te estou a oferecer alegrias imaginárias ou que estou a pregar o ascetismo. Quero que proves todos os prazeres reais dos sentidos. O meu único desejo é dar-te para além disso o meu inesgotável sentido de êxtase interior.

Se o pudesse fazer, estaria à vontade sobre ti, sabendo que na tua passagem pela vida estarias vestida com um manto enfeitado de estrelas que te protegeria de tudo o que é mesquinho, trivial ou assediante.

Estou interessada em ouvir sobre o adorável cacho de bagas, das negras e vermelhas-violetas, que colheste no parque Steglitz. As amoras talvez tenham sido mais maduras – claro que conheces as bagas mais maduras que ficam penduradas em cachos grossos e pesados entre as folhas em forma de leque. Mais provavelmente, contudo, eram ligustros esguios e graciosos com picos verticais de bagas por entre as folhas verdes estreitas e alongadas. As bagas avermelhadas-violeta, quase escondidas pelas pequenas folhas, devem ter sido as da nespereira anã; a sua cor apropriada é o vermelho mas nesta época tardia em que estão demasiado maduras e começam a apodrecer ganham muitas vezes um tom violeta. As folhas são como as do mirtilo, pequenas, pontiagudas, verde escuras, com uma superfície como se fosse couro em cima mas rugosas por baixo.

Sonyusha, conheces o Verhängnisvolle Gabel de Platen? (1) Poderias enviar-mo ou trazê-lo quando vieres? Karl disse-me que o leu em casa. Os poemas de George são belos. Agora já sei de onde tiraste o verso “e entre o farfalhar do milho avermelhado” que gostavas de citar quando estavas a passear no campo. Gostava que me copiasses o Amades Moderno (2) quando tiveres tempo. Gosto tanto do poema (um conhecimento que devo às composições de Hugo Wolf) mas não o tenho aqui. Ainda estás a ler a Lenda Lessing? Estive a reler a História do Materialismo de Lange (3) que acho sempre estimulante e revigorante. Espero que a leias algum dia.

Sonichka, querida, tive uma dor tão grande recentemente. No pátio onde caminho, frequentemente chegam camiões do exército, carregados de mochilas ou velhos casacos e camisas vindos da frente de guerra; por vezes estão manchados com sangue. São enviados para as celas das mulheres para serem remendados e depois regressam para serem usados pelo exército. O outro dia um destes camiões foi puxado por uma parelha de búfalos em vez de cavalos. Nunca tinha visto estas criaturas perto antes. Têm uma compleição mais poderosa que os nossos bois, com cabeças achatadas, e cornos firmemente recurvados, de tal modo que os seus crânios têm uma forma parecida com os das ovelhas. São pretos e têm olhos grandes e meigos. Os búfalos são troféus de guerra na Roménia. Os soldados-condutores dizem que é muito difícil apanhar estes animais, que sempre têm corrido livremente, e ainda mais difícil de quebrá-los de modo a domesticá-los. Têm sido impiedosamente açoitados – sob o princípio do “vae victis”(4).
Há quase uma centena de cabeças apenas em Breslau. Estavam acostumados aos luxuriantes prados romenos e aqui têm de suportar uma forragem fraca e escassa. Explorados sem limites, sob a canga de cargas pesadas, rapidamente se esgotam a trabalhar até à morte.

O outro dia um camião veio carregado de sacas, tão sobrecarregado de facto que os búfalos eram incapazes de arrastá-lo através da soleira do portão. O soldado condutor, um tipo bruto, espancou as pobres bestas de maneira tão selvagem com o cabo do seu chicote que a guarda do portão, indignada com o que via, lhe pediu compaixão pelos animais. “Não mais do que alguém tem compaixão por nós homens”, respondeu ele com um sorriso malvado e redobrou os seus golpes. Lentamente os búfalos conseguiram fazer a carga sobre o obstáculo mas um deles estava a sangrar. Sabe-se que a sua pele é conhecida pela sua espessura e dureza mas tinha sido rasgada. Enquanto os camiões estavam a ser descarregados, as bestas, que estavam absolutamente exaustas, permaneceram perfeitamente paradas.

O que estava a sangrar tinha uma expressão na sua cara preta e nos seus olhos pretos meigos como a de uma criança a chorar – uma criança que tenha sido fortemente espancada e não perceba porquê, nem saiba como escapar ao tormento dos maus tratos. Fiquei em frente dos animais; a besta olhou para mim: as lágrimas jorraram dos meus olhos. O sofrimento de um irmão muito amado dificilmente poderia ter-me afetado mais profundamente do que estava comovida pela minha impotência face à sua muda agonia. Muito longe, perdidos para sempre, estavam os prados verdejantes e luxuriantes da Roménia. Quão diferente é lá a luz do sol, o sopro do vento; quão diferente é lá a canção dos pássaros e o chamamento melodioso do pastor.

Em vez disso, a rua hedionda, o estábulo fétido, o feno rançoso misturado com a palha bolorenta, os homens estranhos e terríveis – golpe após golpe e com sangue a escorrer das feridas abertas. Pobre miserável, sou tão impotente, tão estúpida, quanto tu próprio; sinto-me unida a ti na tua dor, na tua fraqueza e na minha saudade.

Enquanto isso as mulheres prisioneiras acotovelavam-se enquanto descarregavam atarefadamente a carrinha e carregavam as sacas pesadas para o edifício. O condutor, de mãos nos bolsos, galgava o pátio de cima para baixo, sorrindo a si próprio enquanto assobiava uma moda popular. Tive uma visão do esplendor da guerra!...

Deixa estar, minha Sonyusha; deves estar calma e feliz na mesma. Tal é a vida e temos de a tomar tal como é, bravamente, cabeças erguidas, sorrindo sempre – apesar de tudo.



Tradução de Carlos Carujo a partir da versão inglesa disponível em marxists.org

(1) O Garfo Fatal, uma comédia satírica
(2) Uma canção de Goethe.
(3) Lange foi também autor de “A questão do trabalho, o seu significado para o presente e o futuro”.
(4) Expressão latina que significa literalmente “Ai dos vencidos”. Remete para o facto dos vencidos em batalhas não deverem esperar misericórdia dos vencedores.

Acompanhe o Natal da galera do Super Batepapo

O Papai Noel é ou já foi membro do Partido Comunista?

Is Santa Claus Now or Has He Ever Been a Member of the Communist Party?


"Papai Noel é o que ele é", declarou Megyn Kelly, da Fox News. Ou é ele? Kelly estava insistindo que Papai Noel deveria ser branco, porque é preciso respeitar "o legado da história". E aqui, ao que parece, Kelly é vítima da propaganda de seus inimigos ideológicos. Porque temos boas evidências de que o Papai Noel era de fato um comunista.


Acima, você pode ver o Velho São Nicolau fazendo propaganda descaradamente pela União Soviética e sua busca agressiva pela corrida espacial em 1963. Como Abby Ohlheiser do The Wire explicou, alguns dos mais ferozes lutadores da guerra no Natal foram os puritanos, em cujos ideais nós, EUA, construímos este país. Eles estavam certos em serem céticos, porque séculos mais tarde, Papai Noel seria perfeitamente integrado à ideologia que se opunha a todos os seus ideais de Deus e capitalismo.


O Papai Noel russo é chamado de Ded Moroz, que se traduz aproximadamente como Vovô Geada. Como os puritanos, os bolcheviques inicialmente se opuseram à celebração do Ano-Novo semelhante ao Natal dos russos, incluindo seu pinheiro e seu velhinho vindo com presentes. Como Karen Petrone explica em Life Has Become More Joyous, Comrades, o feriado foi considerado "burguês" e Ded Moroz foi proibido em 1928, tendo sido "desmascarado como um aliado dos padres e do kulak". Porém, menos de uma década depois, os soviéticos admitiram que haviam julgado mal Ded Moroz.


Em 1937, Ded Moroz voltou à Rússia, com Joseph Stalin ordenando-lhe que usasse uma capa azul para não ser confundido com o Papai Noel capitalista americano (ou deveríamos dizer, a identidade americana do avô Frost?).  The Virginia Advocate em 22 de dezembro de 1949, explicou que Papai Noel Vermelho é, em última análise, uma ferramenta para forçar as crianças a obedecer à ideologia comunista.

Virginia Advocate continuou:

Nas reuniões infantis na época de festas ... o avô da geada dá palestras sobre o bom comportamento comunista. Ele costuma encerrar sua palestra com a pergunta "para quem agradecemos ter todas as coisas boas de nossa sociedade socialista?" Ao que, dizem, as crianças responderam em coro: "Stalin".

Em 15 de dezembro de 1953, The Free Lance-Star relatou que o presidente comunista da Tchecoslováquia, Antonín Zápotocký, explicou a opinião comunista sobre o feriado, que deve colocar medo no coração de todos os apresentadores da Fox News que temem que o Cristo esteja sendo retirado do Natal:


“A história do nascimento do Menino Jesus é apenas um mito do explorador ... Os tempos mudaram. O pequeno Jesus cresceu e agora é o Avô geada. Ele não está mais em farrapos e nu como estava quando era um bebê , mas agora bem vestido com um chapéu de pele e um casaco. "

E olhe para a campanha de propaganda do Papai Noel Vermelho - desculpe, Ded Moroz - participou com entusiasmo com a sociedade operária soviética. À direita, ele vê você quando você está dormindo, ele sabe quando você está acordado - e também toca seu telefone e transmite propaganda em sua sala de estar por quantas horas por dia você tiver eletricidade.

Nos EUA, o Papai Noel foge na calada da noite com uma lista secreta, nunca mostrando o rosto para o povo americano. Na URSS - assim como na Rússia de Vladimir Putin - ele mostra seu rosto às crianças, sem vergonha. É porque Ded Moroz é a verdadeira identidade do Papai Noel. É porque apenas na Rússia ele é livre para ser ele mesmo?

Clique no link abaixo para assistir a galera do Super Batepapo discutindo a efeméride do Natal levando em consideração a ideologia marxista. 

sábado, 19 de dezembro de 2020

DEZEMBRO VERMELHO - DEBORA SABARÁ FALA SOBRE CIDADANIA LGBTQI, PRECONCEITO E PREVENÇÃO CONTRA HIV/AIDS

 

 

UMA MÃE, TRABALHADORA QUE LUTA PELO DIREITO DE TODOS SEREM CIDADÃOS DE FATO
Deborah Sabará é coordenadora da Associação Grupo Orgulho, Liberdade e Dignidade (GOLD), presidenta do Conselho de Estado de Direitos Humanos do Espírito Santo (CEDH-ES), coordenadora colegiada do Fórum LGBT do Espírito Santo, secretária de Direitos Humanos da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexuais (ABGLTI) e diretora de Ética na Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA).
ACOMPANHE DEBORA SABARÁ
NO SUPER BATEPAPO

Deborah Sabará, transexual, militante da causa lgbtqi, Coordenadora do forum pela cidadania lgpt ES, Coordenadora de Ações e Projetos na empresa Associação GOLD, falou com a galera do Super batepapo sobre a cidadania lgbt e prevenção ao HIV-aids. 

Nessa conversa Debora esteve bem acompanhada por Élida Miranda, Coordenadora de Projetos do Fundo Positivo, que também discorreu sobre o assunto. Ela chamou a atenção para a importância de se tratar a sexualidade como um processo de desenvolvimento da vida humana e garantir o acesso do jovem a esse tipo de informação para que ele possa vivenciar as experiências sexuais de modo seguro.



A Associação Grupo Orgulho , Liberdade e Dignidade - GOLD é uma entidade sem fins lucrativos que desde 2005 atua no Espírito Santo promovendo a cidadania e defendendo o direito de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, contribuindo ainda para a construção de uma democracia sem qualquer forma de discriminação e afirmando a livre orientação sexual e identidade de gênero.

A Gold é a ONG LGBT Capixaba, aquela que se coloca à disposição de todas, todos e todes na construção de projetos e espaços de diálogo para redução da LGBTfobia.

Venha nos visitar e conhecer nossos projetos passados, presentes e nossos sonhos futuros. Estamos sempre abertos a novas parcerias e ideias. Aguardamos seu contato. Facebook Twitter Instragram



Dezembro vermelho: o que é?

O último mês do ano também tem um tema para chamar de seu. Você já ouviu falar sobre dezembro vermelho? Sabe sobre o que se trata? Se não, chegou a hora de conhecer. Continue lendo o artigo para entender mais sobre!

Dezembro vermelho

Mês da conscientização e combate à Aids


1º de dezembro é o Dia Mundial de Luta Contra a Aids.

A data foi estabelecida internacionalmente em 1987 por decisão da Assembléia Mundial de Saúde com apoio da Organização das Nações Unidas (ONU). No Brasil, o Ministério da Saúde adotou a data um ano depois.

O objetivo foi o de reforçar a solidariedade, a tolerância, a compaixão e a compreensão com portadores de AIDS.

Nada mais justo do que prolongar o dia para um mês todo. Dezembro, portanto, é o dezembro vermelho, o mês da conscientização e combate à AIDS.

Saiba mais sobre o assunto

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Intromissões imperialistas nas eleições Venezuelanas

Venezuelan National Assembly Elections
 amidst Imperialist Meddling Marked by Low Turnout
 - 
por Jorge Martin

As eleições de 6 de dezembro para a Assembleia Nacional na Venezuela foram marcadas por uma baixa participação em meio à agressão imperialista e a uma profunda crise econômica. Os EUA e a UE já haviam anunciado com antecedência que não reconheceriam os resultados, mas o trunfo Guaidó está esgotado. A vitória do PSUV anuncia o aprofundamento de sua virada política para a direita.

A primeira coisa a se notar nas eleições venezuelanas de ontem é a escandalosa campanha de interferência imperialista de Washington e Bruxelas. Os EUA obviamente fracassaram em sua ofensiva de “mudança de regime” em 2019/20, que incluiu a autoproclamação de Guaidó como “presidente”, um golpe militar fracassado, uma incursão mercenária, sanções, ameaças etc. Esta campanha de agressão imperialista continua até hoje com a recusa em reconhecer esta eleição e seus resultados. No entanto, seu homem, Guaidó, é claramente uma força esgotada, que, tendo falhado em seus objetivos de derrubar o governo de Maduro, está agora amplamente desacreditada e nem mesmo conta com o apoio unificado da oposição pró-imperialista.

A UE, que apoiou Washington, mas só tocou como o segundo violino, tentou adiar as eleições, o que Maduro com razão recusou. O povo venezuelano tem seu próprio governo e tem o direito de realizar eleições na data prevista, sem que Borrell, Pompeo ou o sinistro criminoso de guerra Abrams tenham algo a lhe dizer.

Em 9 de desembro, porta-vozes imperialistas na Europa e nos Estados Unidos esqueceram a pandemia e destacam o baixo comparecimento. A participação foi baixa e as razões para isso serão discutidas mais adiante; no entanto, nas eleições parlamentares na Romênia no mesmo dia, a participação também foi de apenas 31%, sem ameaças imperialistas nem boicote da oposição, e não vemos Washington nem Bruxelas reclamando contra as eleições romenas.

Jeanine Añez
Talvez o exemplo mais escandaloso de duplo critério reacionário foi o tweet de Jeanine Añez dizendo que as eleições venezuelanas eram “falsas”. Esta é a pessoa que se tornou “presidente” da Bolívia através de um golpe militar, sem que uma única pessoa tivesse votado nela para ocupar aquele cargo e cujo partido recebeu apenas 4,2% dos votos!

A maior parte (mas não toda) da oposição (sob instruções de Washington) decidiu boicotar a eleição, mas não fez campanha pelo boicote nem tentou atrapalhar a votação, como fizeram com as eleições para a Assembleia Constituinte em 2017.

Nessas condições, o comparecimento foi fundamental para o governo fortalecer sua legitimidade. Além do boicote da oposição, o governo de Maduro lutava contra a desilusão entre as fileiras chavistas. Este é o resultado da profunda crise econômica (agravada por sanções), mas também do fato de o governo não ter sido capaz de cumprir suas repetidas promessas de reverter a situação. As pessoas perderam a conta de quantas vezes o governo prometeu transformar a Venezuela em uma potência econômica e as repetidas concessões ao setor privado não produziram resultados tangíveis.

A isso temos que acrescentar o curso à direita do governo. Ao enfrentar as sanções, o governo tornou-se dependente de seus parceiros comerciais (China, Rússia, Turquia e Irã), que pressionaram por uma política de restauração de algum tipo de equilíbrio, desfazendo muitas das conquistas da revolução bolivariana e criando condições favoráveis ​​ao investimento capitalista estrangeiro. Assim, temos visto a crescente privatização de empresas estatais, muitas das quais foram nacionalizadas sob Chávez. No campo da reforma agrária ocorreram inúmeros incidentes em que se tomaram terras comunais para serem entregues a proprietários privados, utilizando a força do Estado (tanto a Guarda Nacional quanto o grupo de elite anti-extorsão e sequestro FAES) e o judiciário contra os camponeses. O Ministro da Agricultura é um dos principais defensores da ideia de promover uma “burguesia revolucionária”. Contratos de negociação coletiva foram destruídos como parte de um pacote econômico em agosto de 2018. Ativistas operários e camponeses foram presos, em alguns casos por anos sem julgamento, enquanto golpistas fantoches imperialistas reacionários estão livres para continuar conspirando ou são libertados da prisão como um gesto de boa vontade. Esse movimento à direita do governo criou um clima de desilusão e oposição entre os ativistas chavistas.


Dito isto, o PSUV ainda é uma máquina eleitoral formidável e bem lubrificada, e ainda comanda um certo grau de apoio entre as camadas mais pobres da sociedade. Pode-se entender este apoio, em parte, porque o partido está associado ao legado de Chávez e aos ganhos reais obtidos com a revolução; em parte porque o partido está associado às cestas básicas do CLAP e a outros benefícios sociais entregues pelo governo; em parte também devido ao profundo ódio ao imperialismo e seus agentes locais, o que leva ao cerramento das fileiras do PSUV. Isso é algo que os comentaristas capitalistas são completamente incapazes de entender. Quanto desse apoio ainda se mantém foi uma das questões-chave nesta eleição.

Nos dias que antecederam as eleições, ficou claro que Maduro e o PSUV estavam preocupados com a possibilidade de uma participação muito baixa (e eles têm os meios para avaliar isso com muita precisão). Esta é a razão pela qual Maduro deu a entender que, se perdesse esta eleição, renunciaria, na tentativa de encorajar o voto da oposição. Ele também fez o possível para bloquear o acesso do Partido Comunista Venezuelano aos telespectadores em um discurso na TV, provavelmente revelando que sabia que o PCV estava indo melhor do que o esperado.

Em geral, desde que Chávez venceu pela primeira vez em 1998, as eleições venezuelanas começavam de manhã cedo e havia filas nas seções eleitorais até o fechamento e mesmo depois. As seções eleitorais geralmente eram forçadas a permanecer abertas após o horário de fechamento porque ainda havia filas de pessoas esperando para votar.

Desta vez foi diferente. A participação durante o dia foi baixa. Não apenas baixa no sentido de que os eleitores da oposição não compareceram (o que era previsível), mas baixa também em termos dos votos chavistas do núcleo duro, que não atingiram o número que alcançaram nas eleições anteriores. Na hora do encerramento oficial, o Conselho Nacional Eleitoral declarou que as assembleias de voto permaneceriam abertas, embora não houvesse filas de espera.

De acordo com os resultados provisórios, com 82,35% dos votos apurados, o comparecimento foi de 31%. O comparecimento foi baixo, mesmo considerando o boicote da maioria da oposição. O PSUV recebeu 67% dos votos válidos, que, se extrapolarmos para os 100% dos votos, somariam 4,3 milhões. Compare-se isto aos 5,6 milhões de votos nas eleições anteriores à Assembleia Nacional em 2015, aos 6,2 milhões de votos nas eleições presidenciais de 2018 (também com um boicote da maioria da oposição, embora essas duas eleições não possam ser comparadas de forma direta). Este foi um mau resultado para o PSUV, que mesmo assim terá uma maioria substancial na nova Assembleias Nacional, talvez até mesmo uma supermaioria de dois terços.


O surgimento da Alianza Popular Revolucionaria (APR) é uma característica importante desta eleição. Pela primeira vez desde 1998, há um candidato à esquerda do principal partido chavista (se é que o PSUV ainda pode ser considerado como tal). No entanto, a APR, que estava passando pela chapa eleitoral do PCV, tinha uma série de fatores contra. Em primeiro lugar, trata-se de uma aliança muito recente, que só foi constituída em agosto. Foi atingida por interferências do Estado, incluindo o fato de três dos partidos componentes terem seus registros eleitorais suprimidos pelo Supremo Tribunal Federal. Isso significa que em alguns estados com forte tradição do PPT, por exemplo, as pessoas podem ter votado na chapa do partido, sem perceber que a chapa não estava mais sob o controle da direção do partido, e assim votando no PSUV ao invés de votar na APR. Também ocorreram incidentes de assédio a candidatos da APR, tanto por parte da polícia como de dirigentes de empresas estatais. Uma escandalosa campanha de censura na mídia estatal tornou a APR invisível para a maioria dos eleitores chavistas, apesar do fato de os candidatos da oposição de direita receberem ampla cobertura.

Além disso, a força e a presença da APR são desiguais em todo o país. Sua campanha teve um impacto importante entre as camadas mais ativas (nas redes sociais, organizações de base etc.), mas não foi realmente capaz de alcançar as massas de trabalhadores e pobres, em parte devido às suas próprias deficiências e falta de recursos, em parte por causa do boicote do Estado. Também vale a pena mencionar que os principais partidos da APR se recusaram a discutir um programa claro, o que aumentou a confusão e tornou mais difícil conter a campanha de mentiras e calúnias contra eles.


No final, a APR recebeu 143.917 votos (na primeira contagem oficial provisória), o que poderia significar cerca de 175.000 quando todos os votos forem contados, 2,7%. Seria o mesmo número de votos que o PCV recebeu na eleição presidencial de 2018 quando fazia parte da coalizão de Maduro (na Venezuela é possível votar em um candidato mas fazê-lo na chapa de cada um dos partidos que o apoiam). A esta altura, parece claro que a APR vai eleger deputados para a Assembleia Nacional, embora não esteja claro quantos.

O PSUV, apesar do mau resultado, terá alcançado o seu principal objetivo: retomar o controle da Assembleia Nacional. Agora terá um domínio mais livre na execução de suas políticas e na aprovação do legislativo. Se seu histórico recente for um guia, ele usará esse poder para aprofundar sua virada liberal. Dois dias antes da eleição, o presidente Maduro, em discurso pela televisão, dirigiu uma mensagem aos capitalistas:

“aos empresários, nacionais e internacionais, digo-lhes que com uma nova Assembleia Nacional chegarão novos tempos e vocês nos encontrarão prontos para implementar quaisquer mudanças, reformas e adaptações para impulsionar o aparato produtivo e apoiar o setor privado em seu crescimento”.

Mike Pence e Guaidó

Mesmo que o PSUV por si só não consiga a maioria de dois terços necessária para tomar certas decisões, certamente poderá contar com o apoio de partidos de oposição de direita para realizar políticas pró-capitalistas. A estratégia traçada parece ser a de oferecer concessões ao investimento capitalista da China, Rússia, Turquia etc., na esperança de que isso obrigue a União Europeia a mudar suas políticas. Com Guaidó firmemente fora de cena (ele baseou a pequena alegação de legitimidade na maioria da oposição na Assembleia Nacional) e Trump em sua saída, Maduro espera chegar a um entendimento com a UE e Biden a fim de levantar ou aliviar as sanções que afetaram a economia venezuelana. Alguns argumentam que este é o único caminho possível e realista para um país sujeito a sanções econômicas asfixiantes.

Claro, qualquer país sujeito a sanções deve estar preparado para negociar com quaisquer países que estejam preparados para negociar com ele. No entanto, as políticas do governo de Maduro não se baseiam apenas no comércio com este ou aquele país. No centro de suas políticas, desde a época em que foi eleito pela primeira vez, mas aprofundada e intensificada desde o pacote econômico de 2018, está a ideia de alcançar uma reconciliação com o setor privado e as multinacionais fazendo todo tipo de concessões. Novamente, alguns argumentarão que não há outra política possível. Isso só é verdade se você só aceitar os limites do sistema capitalista. Dentro do capitalismo, com a queda dos preços do petróleo em 2014/15, a política de programas sociais massivos teve que acabar.

Outra política teria sido possível: a de seguir o conselho dado por Chávez em seus últimos discursos, inclusive em Golpe de Timón, onde argumentou que o caminho a seguir era uma economia socialista e a destruição do Estado burguês.

É isso que os deputados da APR na Assembleia Nacional deverão discutir a partir de agora. Eles devem usar a tribuna parlamentar como alto-falante da voz dos trabalhadores, dos camponeses e dos pobres e de suas lutas. Eles deveriam defender um ousado programa socialista e anti-imperialista e rejeitar a política antioperária de concessões e conciliação com os capitalistas. Desta forma, a APR pode ser construída como uma alternativa revolucionária socialista poderosa. É para isso que os camaradas de Lucha de Clases, seção venezuelana da CMI, têm pressionado.


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